sexta-feira, maio 04, 2012

Espiritualidade e Religião

Autor: não foi possível identificar.

                                                                                              Frei Betto*

A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o "toque” divino.

A religião é uma instituição; a espiritualidade, uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião acata os mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor.

O apóstolo Paulo descreve magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37) e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus 23.

A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões. Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa, melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos sagrados.

*Frei Betto é escritor, autor de Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros. Copyright 2011 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br].

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM: CORREIO MFC (Movimento Familiar Cristão) - BRASIL, Nº 284, 30 DE 2012. 

quarta-feira, maio 02, 2012

Jornalismo: Discurso e ideologia - De Gorila a Homo Sapiens


Foto: Francisco Araujo


                                                                                                                                                              Marcelo Barros*
A morte de Décio Sá, para muito além do ato de covardia perpetrado contra sua pessoa, e que deve ser objeto da mais rígida apuração pelos organismos que tem como função dar segurança à sociedade (na qual incluo, além da Polícia, o Ministério Público e a Magistratura), motivou um debate bastante intenso sobre os limites do jornalismo enquanto um discurso que se publiciza para a sociedade e, como não poderia deixar de ser, forma opinião.

Creio que não há imparcialidade em nenhum lugar, nem mesmo nas pesquisas que pretendemos, no meio acadêmico, ver revestidas de maior objetividade e isenção, através da aplicação de complexos métodos, buscando ora afastar o pesquisador de seu objeto, ora aproximá-lo.

Na atividade jornalística, por certo, também há seus métodos de busca das informações e uma ética no tratamento das mesmas, sendo que o jornalista deveria, idealmente, também, ao sintetizar suas informações como notícia, se abster de emitir seus juízos de valor, éticos e morais, próprios, dando lugar ao que sua investigação realmente trouxe a lume.
Como na atividade de pesquisa a escolha do objeto e os pressupostos a serem estudados (comprovados) já consistem em posicionamento ideológico, a pauta no jornalismo da mesma forma também consiste em posicionamento eminentemente ideológico.

Não vamos ver o jornal da Mirante pautando as inúmeras compras realizadas com dispensa de licitação da Secretaria de Saúde do Estado, mas também não se verá o Pequeno tratando de assuntos delicados em relação ao Município de São Luís. O primeiro é Roseana e o segundo é Castelo. Ponto final.

Me acostumei a ler todas as notícias que chegavam a meu alcance, me resignando a fazer meu próprio crivo sobre as mesmas, razão pela qual sempre li Décio Sá, mesmo sabendo que ele tinha lado, que defendia aqueles que lhe propiciavam a necessária subsistência. Mas, justiça seja feita, Décio Sá era muito bom, tinha uma rede de contatos excepcional e trazia aos que o liam informações preciosas, a que poucos jornalistas tinham acesso.

Como ele tratava também dos interesses inconciliáveis dentro do próprio clã e de seus aliados, era interessante, para mim, saber destas nuances que ele expunha com muita propriedade, às vezes desnudando práticas nada éticas internas do grupo. Também, através de seu discurso, dava para perceber os movimentos ideológicos dentro do grupo, suas estratégias políticas, quem os preocupava etc.

Faço tais considerações por achar que não consigo perceber em tal jornalismo algo nefasto em si mesmo, até pelo fato de que Décio jamais escondeu sua filiação ideológica, sendo que várias vezes vi comentários indignados em seu blog de pessoas que lhe perguntavam se ele não postaria algo sobre tal ou qual mazela do grupo ao qual pertencia.

Por certo, jamais postaria algo assim, vez que não era de “seu” interesse. O discurso é sempre ideológico, seja de que lado for. Há problemas, falhas e erros em toda ação política. Ao proferir qualquer discurso, crivamos, sempre, o que não é bom, para que possamos tornar público aquilo que é bom, que possa reafirmar nossa ideologia perante aqueles que são destinatários de tal discurso.

Ao ler o Estado, o Pequeno ou o Imparcial, sei bem quais as linhas ideológicas que os mesmos seguem, e, até, os interesses que cada um busca, sutilmente por vezes, resguardar. Nenhum é isento ideologicamente. Silenciam e bradam consoante os interesses que defendem, ou, aos quais, circunstancialmente, se aliam.

Quanto aos “gorilas diplomados”, não considero os jornalistas que defendem posições de grupos políticos dessa forma, vez que a relação, a meu ver, é de profunda submissão. Para além dessa compreensão, e muito mais séria, a relação é de profissionais que são “utilizados” por aqueles que estão imbricados nas redes de poder, muito antes de exporem seus próprios juízos de valor sobre os fatos. O jornalista que assim age, defendendo, visceralmente, interesses que não são os seus próprios, mesmo que em busca de sua subsistência, corre o risco de se indispor com pessoas inescrupulosas. Compra uma briga, que, em verdade, não é sua.

Quanto ao jornalismo sobre o tema política, sobre este assunto especificamente, acho que não há qualquer órgão de imprensa neutro. Se filiam, todos, ocasionalmente, a grupos políticos ou discursos ideológicos, sempre pautando discussões que sejam do seu interesse. Logicamente, não podem se furtar de noticiar sobre a ordem do dia, as que não tenham estabelecido, mas acham sempre o “jeito certo” de minimizar fatos e omitir opiniões desfavoráveis.

Não considero, por fim, que Pedrosa tenha se posicionado, em essência, de forma preconceituosa, e até acho que sua fundamentação é bastante consistente, razão pela qual concordo com sua leitura da função jornalística, mas com as ressalvas que fiz acima. O erro, a meu ver, foi o termo “gorilas diplomados”. Não fosse tal termo e seu artigo seria somente mais um, expressando uma opinião coerente e, por certo, bem fundamentada.

Em suma, o que percebo em tal questão não difere essencialmente do pensamento de Pedrosa, mas somente não acredito em posições jornalísticas que se queiram acima do bem e do mal, em discursos que não sejam perpassados pelo componente ideológico, em atos eivados de imparcialidade, vez que considero o jornalismo somente mais uma esfera do discurso ideológico. Esta é a luta ideológica, da qual fazemos parte, sem qualquer isenção, seja na direita, centro ou esquerda.

Acredito no ser humano, no homo sapiens, que busca o reconhecimento de seus pares, imageticamente em sua busca pelo domínio territorial através da força, bem instintivo, e como ser de linguagem, através da imposição de seu discurso.

Fosse assim e os Magistrados cumpririam, em sua totalidade, sua função de distribuir justiça, mas, como seres humanos que são, criados em ambientes socialmente determinados, não raro obnubilados pela visão das classes dominantes, não conseguem, muitos, apesar do imaculado lócus do qual proferem suas decisões, que se quer ideologicamente neutro, perceber o liame existente entre distribuir justiça ou exarar posicionamentos ideológicos.

Inobstante meu posicionamento, acho que os jornalistas precisam realmente discutir este tema, vez que a eles isto interessa sobremaneira, inclusive pela exposição a que eventualmente são submetidos. Quanto a questões éticas da profissão, confesso que não as conheço em profundidade e me eximo de emitir, neste momento, juízo de valor quanto a isso, mas, acho que o debate talvez tenha como ponto central o pressuposto de que há ideologia no discurso jornalístico, não raro servem a interesses de classe e que tal filiação não é incongruente com a prática jornalística. O que não pode haver na atividade, a meu ver, é hipocrisia (não assumir que tem lado) e mentira.

Quanto a Décio Sá, a certeza, que é minha, de que exerceu a atividade jornalística de forma brilhante, por certo com alguns equívocos (principalmente quando entrava na esfera privada de algumas pessoas), mesmo que eu não concordasse com seus posicionamentos políticos em defesa do grupo político que governa o Maranhão por quase meio século.

Em relação a Pedrosa, meu reconhecimento como cidadão preocupado com uma sociedade mais livre, justa e democrática, que o considero, sem qualquer preconceito que possa lhe ser impingido, vez que pessoa que sempre lutou, além de tudo, pela igualdade entre os socialmente desiguais.

* Advogado e Cientista Social. 

terça-feira, maio 01, 2012

Trabalho. O que é o trabalho..


O que é o trabalho? Trabalho é o esforço desesperado em um tempo fadigante para conseguir remuneração com a finalidade de ser revestida em obtenção de bens? Não. O trabalho assim seria reduzido ao trabalho subordinado, voltado mais para a sobrevivência material. Esse tipo é comum no capitalismo. Porém, o trabalho não é um fenômeno restrito à satisfação de necessidades imediatas, inatas, orgânicas, tais como comida e bebida. O trabalho é algo mais, portanto não pode também ser reduzido ao emprego, a relação formal de subordinação do trabalho ao capital. Trabalho é algo que não depende da economia. O que depende da economia é emprego. O trabalho não atende só necessidades imediatas, mas realiza satisfações, posiciona inovadoramente o indivíduo diante da natureza, do mundo e do seu grupo, pois implica na faculdade transformadora de se constituir humanamente. Trabalho não é só valor econômico. A utilidade e importância de diversos trabalhos não estão no preço, nem no lucro, mas é satisfação emotiva de realização, coisa que não é possível mensurar. 

domingo, abril 29, 2012

sexta-feira, abril 27, 2012

Bater em morto é fácil, mas é prova de covardia


Lamentável ver como algumas pessoas estão totalmente encarceradas no passionalismo. Tanto para elogiar como para desqualificar. De repente a discussão sobre o assassinato de Décio descambou para a algo análogo ao processo de beatificação ou canonização. Uns querendo provar milagres que possam garantir a santidade, outros querendo provar os pecados para impedir a canonização. Ninguém quer mais saber da realidade e suas possibilidades e impossibilidades.

O que Décio fazia é muito distante do que a grande imprensa faz no Brasil inteiro? Alguém já se perguntou como só uma emissora ou só um jornal pode noticiar material de escuta, além de apresentar tantas outras coisas com exclusividade? É tudo trabalho ético e sem parcerias? Alguém nunca viu em blogues de jornalistas nacionalmente conhecidos ataques sistemáticos e direcionados a uma determinada pessoa, partido político e entidade? Essa fórmula não é uma exclusividade do falecido jornalista. Fórmula também presente nas rádios e televisões. Se esse não é o jornalismo ideal ou desejado, trata-se de uma outra questão.


Choca a covardia praticada contra Décio, no pós-morte . Agora, sem que a parte possa se defender, uns perfeitos seres de boa índole aparecem para desqualificar o jornalista, em puro exercício de mágoa. O que Décio escreveu e na forma como escreveu, sem dúvida, gerou ressentimentos... Alguns ataques eram de antipatias pessoais, mas comuns à vida cotidiana e genericamente praticados por qualquer sujeito social... É bom lembrar que alguns comentários publicados no blogue do Décio eram direcionados contra o próprio Décio e de forma desqualificadora, outros reforçavam o tom do que ele dizia. Era só ele?


Quem não tem algum desafeto? Ora, não se trata de querer privar a mágoa de ninguém. Cada um sabe o tamanho de sua dor ou onde o sapato aperta. Mas há o que se separar. A questão é que o blogue, enquanto página pessoal, não era estritamente um jornal ou página só de notícias e do “puro” exercício de jornalismo. Outros blogues de jornalistas maranhenses também não estão restritos ao que seria propriamente jornalismo. Por lá Décio também expressava sua paixões de torcedor, de seu vínculo político etc. O que temos que tratar agora? É do julgamento ético/moral do jornalismo que ele praticava? Exato nesse momento, e sem o direito ao contraditório? Ou devemos tratar de um assassinato cruel e da expansão escancarada da violência?

Não se trata só da morte de Décio, pois podia ser qualquer um outro cidadão, como vem ocorrendo sistematicamente junto aos quilombolas, líderes comunitários etc., e que merecem igualmente receber nossa solidariedade... trata-se, no entanto, de um estado de insegurança e de uma intensificação da violência promovida pela “indústria do assassinato”. Coisas intoleráveis e que ferem uma das condições de vida digna, independentemente de gostar ou não da maneira como Décio noticiava os fatos ou supostos fatos.


Não há dúvidas que a morte de Décio ganhou repercussão que os outros casos similares não ganharam. Mas por ser um jornalista importante e próximo do grupo político dominante invalida nossa preocupação com a violência e o terror desencadeado pela “empresa da morte”? Repudiar a violência e o terror implantado pela pistolagem é ou não é uma causa digna dos vivos?

O que está em questão são as nossas vidas, não é um julgamento para beatificação ou não do morto. A apuração e punição dos culpados é, antes de tudo, uma justiça para nós, para reafirmamos valores que devem balizar a sociedade que desejamos viver: de Paz e Justiça.

quinta-feira, abril 26, 2012

A REALIDADE E O JABOTI SOBRE UMA ÁRVORE


Jaboti (ou jabuti) não sobe em árvore. Jaboti sobre uma árvore é resultado de enchente ou é obra da mão de gente. Ultimante tentam inventar rapel para jaboti. 

Não existe álibi perfeito. Ou é álibi ou não é álibi. Não é questão de perfeição, mas de existência. 

Para quem quer se livrar de um peso tem que saber aproveitar o contexto favorável para produzir o álibi. Para jaboti grande é preciso combinar mão e enchente. 

Vivemos uma época onde estão convencionando o estar na hora certa, no lugar certo, para desgraça certa.




terça-feira, abril 24, 2012

Assassinato de Décio e o estado de Barbárie



Não devemos nos render à lógica instrumental da violência, nem aos seus "engenheiros".


A covardia da empresa do assassinato é uma afronta às formas mínimas de civilidade, de solidariedade, de humanidade, de cristandade... É um insulto ao Estado de Direito e a negação da comunidade política enquanto processadora pacífica de conflitos.


Fere a democracia na sua forma livre de expressão. Trata-se do terror contra os profissionais do jornalismo, concordemos ou não com as ideias de alguns, mas ainda são os profissionais que melhor exercem a vigilância civil no que tange o respeito à coisa pública e ao combate à impunidade


O covarde criminoso e seu contratante se realizaram em quê? A humanidade não cessará diante da brutalidade de vocês, tão pouco a vida! A vida e a humanidade são maiores, são bens maiores! Mas vocês, assassinos, não valem nada!


Décio foi alvejado várias vezes no interior de um bar situado na Avenida Litorânea, em São Luís, por volta das 23:30 do dia 23 de abril. 

 SEM PROPOSTAS - ELEIÇÃO PRESIDENCIAL 2022 O que tem movido os eleitores brasileiro diante das candidaturas à presidência da República este ...