quarta-feira, maio 02, 2012

Jornalismo: Discurso e ideologia - De Gorila a Homo Sapiens


Foto: Francisco Araujo


                                                                                                                                                              Marcelo Barros*
A morte de Décio Sá, para muito além do ato de covardia perpetrado contra sua pessoa, e que deve ser objeto da mais rígida apuração pelos organismos que tem como função dar segurança à sociedade (na qual incluo, além da Polícia, o Ministério Público e a Magistratura), motivou um debate bastante intenso sobre os limites do jornalismo enquanto um discurso que se publiciza para a sociedade e, como não poderia deixar de ser, forma opinião.

Creio que não há imparcialidade em nenhum lugar, nem mesmo nas pesquisas que pretendemos, no meio acadêmico, ver revestidas de maior objetividade e isenção, através da aplicação de complexos métodos, buscando ora afastar o pesquisador de seu objeto, ora aproximá-lo.

Na atividade jornalística, por certo, também há seus métodos de busca das informações e uma ética no tratamento das mesmas, sendo que o jornalista deveria, idealmente, também, ao sintetizar suas informações como notícia, se abster de emitir seus juízos de valor, éticos e morais, próprios, dando lugar ao que sua investigação realmente trouxe a lume.
Como na atividade de pesquisa a escolha do objeto e os pressupostos a serem estudados (comprovados) já consistem em posicionamento ideológico, a pauta no jornalismo da mesma forma também consiste em posicionamento eminentemente ideológico.

Não vamos ver o jornal da Mirante pautando as inúmeras compras realizadas com dispensa de licitação da Secretaria de Saúde do Estado, mas também não se verá o Pequeno tratando de assuntos delicados em relação ao Município de São Luís. O primeiro é Roseana e o segundo é Castelo. Ponto final.

Me acostumei a ler todas as notícias que chegavam a meu alcance, me resignando a fazer meu próprio crivo sobre as mesmas, razão pela qual sempre li Décio Sá, mesmo sabendo que ele tinha lado, que defendia aqueles que lhe propiciavam a necessária subsistência. Mas, justiça seja feita, Décio Sá era muito bom, tinha uma rede de contatos excepcional e trazia aos que o liam informações preciosas, a que poucos jornalistas tinham acesso.

Como ele tratava também dos interesses inconciliáveis dentro do próprio clã e de seus aliados, era interessante, para mim, saber destas nuances que ele expunha com muita propriedade, às vezes desnudando práticas nada éticas internas do grupo. Também, através de seu discurso, dava para perceber os movimentos ideológicos dentro do grupo, suas estratégias políticas, quem os preocupava etc.

Faço tais considerações por achar que não consigo perceber em tal jornalismo algo nefasto em si mesmo, até pelo fato de que Décio jamais escondeu sua filiação ideológica, sendo que várias vezes vi comentários indignados em seu blog de pessoas que lhe perguntavam se ele não postaria algo sobre tal ou qual mazela do grupo ao qual pertencia.

Por certo, jamais postaria algo assim, vez que não era de “seu” interesse. O discurso é sempre ideológico, seja de que lado for. Há problemas, falhas e erros em toda ação política. Ao proferir qualquer discurso, crivamos, sempre, o que não é bom, para que possamos tornar público aquilo que é bom, que possa reafirmar nossa ideologia perante aqueles que são destinatários de tal discurso.

Ao ler o Estado, o Pequeno ou o Imparcial, sei bem quais as linhas ideológicas que os mesmos seguem, e, até, os interesses que cada um busca, sutilmente por vezes, resguardar. Nenhum é isento ideologicamente. Silenciam e bradam consoante os interesses que defendem, ou, aos quais, circunstancialmente, se aliam.

Quanto aos “gorilas diplomados”, não considero os jornalistas que defendem posições de grupos políticos dessa forma, vez que a relação, a meu ver, é de profunda submissão. Para além dessa compreensão, e muito mais séria, a relação é de profissionais que são “utilizados” por aqueles que estão imbricados nas redes de poder, muito antes de exporem seus próprios juízos de valor sobre os fatos. O jornalista que assim age, defendendo, visceralmente, interesses que não são os seus próprios, mesmo que em busca de sua subsistência, corre o risco de se indispor com pessoas inescrupulosas. Compra uma briga, que, em verdade, não é sua.

Quanto ao jornalismo sobre o tema política, sobre este assunto especificamente, acho que não há qualquer órgão de imprensa neutro. Se filiam, todos, ocasionalmente, a grupos políticos ou discursos ideológicos, sempre pautando discussões que sejam do seu interesse. Logicamente, não podem se furtar de noticiar sobre a ordem do dia, as que não tenham estabelecido, mas acham sempre o “jeito certo” de minimizar fatos e omitir opiniões desfavoráveis.

Não considero, por fim, que Pedrosa tenha se posicionado, em essência, de forma preconceituosa, e até acho que sua fundamentação é bastante consistente, razão pela qual concordo com sua leitura da função jornalística, mas com as ressalvas que fiz acima. O erro, a meu ver, foi o termo “gorilas diplomados”. Não fosse tal termo e seu artigo seria somente mais um, expressando uma opinião coerente e, por certo, bem fundamentada.

Em suma, o que percebo em tal questão não difere essencialmente do pensamento de Pedrosa, mas somente não acredito em posições jornalísticas que se queiram acima do bem e do mal, em discursos que não sejam perpassados pelo componente ideológico, em atos eivados de imparcialidade, vez que considero o jornalismo somente mais uma esfera do discurso ideológico. Esta é a luta ideológica, da qual fazemos parte, sem qualquer isenção, seja na direita, centro ou esquerda.

Acredito no ser humano, no homo sapiens, que busca o reconhecimento de seus pares, imageticamente em sua busca pelo domínio territorial através da força, bem instintivo, e como ser de linguagem, através da imposição de seu discurso.

Fosse assim e os Magistrados cumpririam, em sua totalidade, sua função de distribuir justiça, mas, como seres humanos que são, criados em ambientes socialmente determinados, não raro obnubilados pela visão das classes dominantes, não conseguem, muitos, apesar do imaculado lócus do qual proferem suas decisões, que se quer ideologicamente neutro, perceber o liame existente entre distribuir justiça ou exarar posicionamentos ideológicos.

Inobstante meu posicionamento, acho que os jornalistas precisam realmente discutir este tema, vez que a eles isto interessa sobremaneira, inclusive pela exposição a que eventualmente são submetidos. Quanto a questões éticas da profissão, confesso que não as conheço em profundidade e me eximo de emitir, neste momento, juízo de valor quanto a isso, mas, acho que o debate talvez tenha como ponto central o pressuposto de que há ideologia no discurso jornalístico, não raro servem a interesses de classe e que tal filiação não é incongruente com a prática jornalística. O que não pode haver na atividade, a meu ver, é hipocrisia (não assumir que tem lado) e mentira.

Quanto a Décio Sá, a certeza, que é minha, de que exerceu a atividade jornalística de forma brilhante, por certo com alguns equívocos (principalmente quando entrava na esfera privada de algumas pessoas), mesmo que eu não concordasse com seus posicionamentos políticos em defesa do grupo político que governa o Maranhão por quase meio século.

Em relação a Pedrosa, meu reconhecimento como cidadão preocupado com uma sociedade mais livre, justa e democrática, que o considero, sem qualquer preconceito que possa lhe ser impingido, vez que pessoa que sempre lutou, além de tudo, pela igualdade entre os socialmente desiguais.

* Advogado e Cientista Social. 

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