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OS HOMENS DO SÉCULO XIX


O século XIX tem o mérito de consolidar a crença no poder da ciência, herdeira da crença na razão, desde o século XIV (Nicole d' Oresme) foi tomando forma para o estabelecimento da racionalidade que daria forma a sua condição de ciência moderna.
O método científico, plantado no século XVII por Bacon (1561 - 1626) através da obra "Novum Organum" (publicado em 1620), que somado à força renovadora das contribuições de Galileu (1564 - 1642) e René Descartes (1596 - 1650) deram um fecundo e útil suporte para as ações investigativas, produzindo resultados e conquistando confiabilidade para a ciência nova.
Esse modelo de racionalidade foi levado muito a sério no século XIX e, pela primeira vez, teve sua exploração para o campo dos fenômenos sociais e humanos. Momento em que a humanidade parecia ter descoberto a chave para todos os segredos da sua existência e do seu destino. A sensação de previsibilidade crescia, dessa maneira, proliferaram os projetos e desejos criação de novas ciências sobre os mais diversos aspectos da existência humana.

Diante da confiabilidade da ciência e do seu método, foram sendo produzidos inúmeros esboços tentando produzir explicações para as dimensões da vida humana ainda não exploradas pelo método científico.

Foram inúmeras e idéias e tentativas, mas poucos conseguiram demarcações fecundas. Poucos conseguiram deixar obras tão influentes e marcantes para o século seguinte.

Os grandes nomes do século XIX não foram os que mais acertaram ou menos erraram, mas os que tiveram boa originalidade e excelente fecundidade nos seus trabalhos. Pensadores que, mesmo não tendo conseguido produzir, em alguns casos, em conformidade com o que postulavam e acreditavam, abriram um vasto campo de reflexão, questionamento e inspiração.

Considero que Comte, Darwin, Marx, Freud são nomes emblemáticos dessa época, são homens positivos, que buscaram estabelecer áreas de abordagens inexploradas ou pouco sistematizadas com originalidade/fecundidade sob o rótulo científico.

Comte quis estabelecer a ciência da humanidade, tomando a realidade social enquanto passível de ser estudada objetivamente. A história é vista como etapas do pensamento e cuja etapa mais avançada seria o positivo. Observação e teoria estão combinados na produção do conhecimento.

Darwin sistematiza de forma mais aprofundada a questão da interação dos organismos com o meio (a seleção natural), suas alterações ao longo do tempo (adaptações), estabelecendo os referenciais evolucionistas que marcarão diversas gerações. A vida é abordada na perspectiva orgânica, relacionando mudança e interação com o meio.

Marx evoca a condição de ciência para o socialismo, reclamando a autoria de um socialismo científico e trata a história a partir de relações sociais concretas, situadas na produção das condições materiais de existência. Cada etapa histórica corresponderia a um arranjo da existência social-econômica, a história teria leis. Há uma lei de aperfeiçoamento, onde a humanidade deixaria sua pré-história e começaria sua verdadeira história: comunismo. Processo similar ao aperfeiçoamento do espírito codificado por Kardec. Assim como em Comte, em sua obra capital, há um curso otimista para a humanidade: o progresso, nomeado como com o desenvolvimento, concretizado através de saltos de qualidade. Essa percepção da realidade com algo dinâmico também encontra semelhança no evolucionismo de Darwin, porém, o movimento é pensado enquanto dialética.

Freud estabeleceu um novo campo interpretativo do comportamento e abriu um campo distinto da psicologia ao descobrir o inconsciente e desenvolver técnicas para tratar transtornos mentais, estabelecendo a psicanálise. As ações humanas, na sua maioria, estão sob a marca do inconsciente e não do consciente. Sendo que os processos psíquicos estão dominados por tendência de cunho sexual. Enfim, o conhecimento científico é colocado para sondar um universo ao avesso da consciência que quer lhe dar uma explicação.

Mas, esse quadro pode ser complementado, mesmo que academicamente não muito aceito, por Denizard Hippolyte-Léon Rivail (1804 – 1869), que se propôs levar os estudos e o método científico até o campo dos espíritos, da vida pós-morte, buscado dar cientificidade ao campo sobrenatural, através de explicações apoiadas nas ciências estabelecidas, quis dar matéria ao espírito e o enquadrar na ordem dos fenômenos naturais. Também põe os fenômenos num campo evolucionário e do progresso. Tornou-se conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec.

“Apliquei à nova ciência, como sempre fizera, o método da experimentação. Jamais utilizei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava e deduzia as consequências. Através dos efeitos, procurava chegar às causas pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, só admitindo uma conclusão como válida quando esta conseguia resolver todas as dificuldades em questão. (…) Era preciso agir com circunspecção, não levianamente. Ser positivo, não idealista, para não me deixar levar por ilusões”. (Obras Póstumas).

Enfim, o positivismo e o evolucionismo ameaçaram tirar os mitos e superstições de seus aconchegantes esconderijos.

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