Pular para o conteúdo principal

Buda também chupou manga




Através de Gabriel García Márquez, em O general no seu labirinto, descobri que a mangueira não era nativa. Apesar dessa constante presença na paisagem brasileira. A manga é originária do sul e sudeste asiático e chegou às Américas por volta de 1700.

Há vestígios que datam a existência da manga entre de 25 a 30 milhões de anos. O que torna plausível dizer que esse fruto vem sendo utilizado pelos humanos desde tempos mais remotos.

A manga é a fruta mais consumida no mundo, para alguns é a "fruta rei”. No Brasil, essa fruta foi introduzida pelos portugueses, que transacionavam os frutos com os indianos, na exploração do mercado  de especiarias. Os lusitanos logo perceberam a possibilidade de adaptação climática e passaram a disseminar a planta através das sementes. Deu muito certo e a mangueira passou a compor nossa paisagem.

No Maranhão, nos povoados rurais, existe o entendimento que a existência de mangueiras é sinal que o lugar já foi habitado. Dizem os lavradores: “ ali já morou gente”. Para além desse fato, alguns animais da nossa fauna fazem com que a planta vá se espalhando sobre determinadas áreas. São espécies que transportam os frutos para locais mais distantes da árvore, a fim de consumi-los. Porém, deixam as sementes intactas e prontas para germinarem.

Esse povo (nós) também tem um dizer interessante sobre a manga: "Esses políticos são como periquitos, só aparecem em tempo de manga!"  Ou, "Em tempo de manga, toda mucura é gorda". 

Em se tratando de Maranhão, os bosques de manga representam o maior e mais eficiente “programa” "espontâneo" de "segurança alimentar". Graças a esse fruto e sua abundância que a maioria das crianças pobres maranhenses - do interior, ganha sobrevida, adquirindo algumas vitaminas e outros nutrientes para enfrentarem o período sem as mangas. 

Como sabemos, até hoje, os recursos da merenda escolar têm servindo, em grande parte, para alimentar a corrupção nos municípios, enchendo os cofres particulares de prefeitos insensíveis que, logo após iniciarem seus mandatos, passam rapidamente a adquirir caminhonetes, helicópteros, apartamentos caríssimos etc. Enquanto as crianças, nas escolas, ficam só comendo salsicha, macarrão e presunto o ano inteiro. Mas existem escolas onde nem isso é oferecido aos alunos. A merenda simplesmente some. 

A manga é um fruto sagrado para os indianos hindus, representando o amor e a fertilidade. As flores e as folhas são comumente utilizadas em rituais. A folha seria a vida vibrante. Na Índia, conta a tradição hindu, Shiva teria aparecido na sua forma fálica em frente a uma mangueira.

A tradição budista também traz referências à manga. Buda tinha preferência pelos bosques de manga para descansar e meditar. Diante de uma multidão de descrentes fez uma mangueira germinar instantaneamente.

A manga foi meu suplemento alimentar durante a minha infância. Além disso, costumava fazer, da copa da árvore, um refúgio. Ficava lá em cima sempre que o mundo lá em baixo assumia um tom tenebroso. Passava horas lá em cima pensando, observando a paisagem e sonhando acordado. Às vezes, no final da tarde, deitava sobre a areia do quintal, próximo a uma grande mangueira, para ficar olhando para o céu, esperando as primeiras estrelas se tornarem visíveis. 

Sempre que passo pelos povoados, às margens das estradas, fico observando as crianças brincando debaixo das sombras das mangueiras ou vendendo os frutos em pequenos utensílios no acostamento da pista. Fico questionando se tudo mesmo é fruto do sujeito histórico ou se, pelo mesmo de vez enquanto, há uma mexidinha divina, colocando uma saída para os menos favorecidos quando a história deles é uma sequência de desgraças e péssimos governos.

Como seria o Maranhão sem mangueiras? 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AÇÃO DIRETA E LEGÍTIMA DEFESA PACÍFICA

Green Politics must become the Politics of the Regions – all the Regions, from the celestial to the subterranean. Let the next Gathering of the Greens conduct all its business in poetry. This will foreshadow the day when America will be Green. Even better, the day when for a small fee we do an international name exchange and America becomes a large frozen island, while Green Land extends from sea to shining sea. The day when Green Politics rules. The day when the President pantomimes the Inaugural Address and sings the State of the Union in falsetto. The day when the Supreme Court sits naked in powdered wigs and hands down rulings in Pig Latin. The day when the Congress throws a multi-party and dances all the Laws out of existence.(Trecho do The Surre(gion)alist Manifesto , John P. Clark)
É preciso ultrapassar as formas mórbidas e dilacerantes da política atual. Não adianta só as contestações, enquanto persistir seus mecanismos genocidas e desumanizantes é necessário agir diretamente s…

Ação Penal 470 - Filhos do Brasil

                                         Por  Washington Ribeiro Viégas Netto*

"Quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio. Um dia, um feio inventou a moda, e toda a roda amou o feio". Zeca Baleiro.

Tenho acompanhado com especial atenção o julgamento do mensalão pela nossa mais alta corte de justiça, o STF. Penso que o resultado ali proclamado nos dará uma medida atual do quanto já nos distanciamos da pecha “república de bananas”; forma de governo que ainda persiste em países destas latitudes. No decorrer de todos esses anos em que tramita o processo, tem sido uma rara oportunidade de o Brasil reafirmar a força e solidez de suas instituições, soberanamente constituídas, quando confrontadas com um, ao que tudo parece, projeto de poder que, por meio de um conhecido método de aparelhamento estatal, tentou um processo de clivagem dessas mesmas instituições. Porém, antes mesmo de iniciado o julgamento, acredito que o saldo é favorável ao Brasil. O Supremo é composto d…

A CORRUPÇÃO NÃO É UMA COISA MENOR

A CORRUPÇÃO NÃO É UMA COISA MENOR A relativização aplicada aos casos de corrupção praticada por parte da “esquerda” (criminosos da “política’) é vergonhosa e irresponsável, mas não deixa ter coerência interna com a doutrina política que abraçam (ao credo religioso que professam). Esse modelo de esquerda existe enquanto séquito e seu ethos é de natureza similar aos ethos encontradas em seitas religiosas. Seguem a apreciação dos fatos e do contexto sob a ferrenha força doutrinária (que diz o que fazer) e sustentada pela fé cega (eles creem por creem, sem se permitir pensar sobre os rumos da sua fé e os efeitos dela sobre o contexto). Essa parte é, sem exagero nenhum, composta por fanáticos. O fanatismo é tão exacerbado que buscam escamotear fatos, em que pese as diferenças e possibilidades interpretativas, são passíveis de verificação por diversos meios. Mas, como fanáticos de tipo de seita, estão mantendo a coerência, pois não só isso pode ser racionalizado a partir da doutrina mãe (marx…