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FHC: DO PRINCIPADO AO THC


Fernando Henrique Cardoso  (FHC) integrou o grupo de jovens que iniciou os estudos sobre Marx. No fundo pretendiam suplantar a fama de  intelectuais não-marxistas das gerações que os antecederam. Pois esses eram vistos, por esse grupo, como culturalistas e não-críticos. Traduzindo: a geração dos que não tinham feito uma confissão de fé ao marxismo.  

Não se pode negar o esforço e a importância da empreitada desse grupo de jovens estudiosos do marxismo. Pois produziu, na época, trabalhos acadêmicos importantes como Metamorfoses do escravo de Octavio Ianni e Capitalismo e escravidão no Brasil meridional de Fernando Henrique Cardoso.

Para precisar melhor a  situação. Foi criado na USP um projeto de supremacia intelectual marxista e pessoas como Gilberto Freyre deveriam ser alçadas ao mar do “pensamento menor”, reduzidos ao estereótipo do regionalismo, bom lembrar: ao Nordeste. O grupo de estudos marxistas teve início com o retorno de José Arthur Giannoti da França, onde tinha concluído seu doutorado, segundo Afrânio Garcia Jr.

Quem acompanha a história, com olhos abertos, sabe  que a obra de Gilberto Freyre sobreviveu a isso. Mas nem tudo era um surto de arrogância nesse grupo, nem todos seguiam a escalada de autopromoção e tomada de poder nos moldes de Fernando Henrique Cardoso.
Ao contrário disso, o professor Octavio Ianni marcou sua carreira de forma diferenciada: “Ianni não foi apenas um de nossos mais importantes cientistas sociais. Foi uma referência ética e intelectual, um expoente da ‘escola paulista de sociologia’ que alçou vôo próprio e construiu uma carreira aparentemente solitária, avessa a badalações, a disputas por cargos, a holofotes e picuinhas”. (Marco Aurélio Nogueira).

Por mais motivos que existam para criticar FHC não é cabível negar sua contribuição intelectual no desenvolvimento das ciências sociais no Brasil e nem negar sua carreira política com tendo origem na esquerda. O absurdo fica maior quando isso é feito em comparação a Lula, quando esse é posto como originariamente de esquerda. Mas retornemos a FHC.

FHC sempre buscou ocupar postos estratégicos. Empenhou-se e quando a sorte surgiu ele estava em condições de aproveitá-la. Vide o “impeachment” de Collor e sua transformação em ministro de Itamar, que lhe renderia a Presidência da República com o sucesso do Real.

Feitas as considerações iniciais cabe a pergunta: o que representa hoje FHC e essa causa pela Cannabis Sativa, pelo THC (d-9-tetrahidrocannabinol). Este último é o princípio ativo, quanto menor o THC menor será o “barato”, se for muito baixo vai servir apenas para fabricar cânhamo, “ele não dá barato”.

FHC para expressar suas novas convicções, quando estava Presidente da República, passou a assumir um nítido distanciamento de Marx, como solução pensada, passou a citar Max Weber. Transformou em autodefesa as noções weberianas de ética da responsabilidade e ética do compromisso. Nítida racionalização. FHC quis justificar as alianças políticas que fez, particularmente com as maiores expressões do mandonismo republicano: Sarney e Antônio Carlos Magalhães, mesmo sendo sociólogo de origem marxista.

O ego inflado de FHC não era segredo para os que conviveram com ele no início de sua carreira. Com a enorme exposição pública, que ganhou com a carreira político-partidária, essa marca passou a ser de conhecimento de todos. Mas essa empreitada egocêntrica teve diversos colaboradores, seria impossível ir tão longe sem auxílios.

Como surgiu o “Príncipe dos Sociólogos” ? Segundo Francisco de Oliveira (em palestra proferida no II Encontro de São Lázaro – FFCH-UFBA, 16 de junho de 2011) “o culpado por isso foi Glauber Rocha. Foi ele que inventou isso”. Pois bem, o Glauber era um sujeito ímpar, mesmo quando apontava para um lado diferente acertava. Não é desmedido dizer que FHC foi um príncipe virtuoso, na perspectiva de Maquiavel sobre virtú. Tão príncipe quanto o senador Sarney.

FHC, depois de duas vitórias eleitorais sobre Lula e o sucesso do Plano Real, imaginou uma grandeza incomum (nos moldes lulista, quando batizou Sarney de cidadão incomum – dotando-o de total imunidade, colocando-o acima dos deveres e obrigações impostos aos cidadãos comuns). Deve ter imaginado que seu sucesso seria o maior de toda a vida política brasileira. Não só isso, mas assim como imaginou que seu brilho ofuscaria Gilberto Freyre na academia, deve ter imaginado também  suplantar Getúlio Vargas no cenário político. Chegou a declarar que as reformas que estava fazendo desmontaria o Estado getulista.
Enfim, seu sucesso era algo que não podia ser igualado tão facilmente e nem em tão pouco tempo. Nesse momento o Príncipe dos Sociólogos já tinha se metamorfoseado  para Pai do Real, Deus da estabilidade econômica etc. Seu discurso era todo liberalização do mercado, fim do protecionismo, privatizações etc. Além de demonstrar publicamente seu desprezo e ódio pelos funcionários públicos, qualificando-os de “vagabundos”.

Findado o segundo mandato de FHC, o ex-príncipe, veio a dose real do ostracismo e do quase anonimato. Para complicar o ferimento no seu ego, o seu sucessor, ex-operário, o mais príncipe dos príncipes, em termos maquiaveliano, foi reunindo recordes e popularidades ainda não registradas por seus antecessores. Além disso, sobreviveu a escândalos de uma forma incomum. FHC estava com Deus no momento da criação, mas Lula estabeleceu o NUNCA ANTES, colocando-se anterior ao próprio momento da criação. Isso pesou sobre a vaidade de FHC, passando a se sentir cada vez mais sem a importância que achava que merecia ter. Chegou a reclamar que Lula não lhe ouvia.

Desde então passou a trabalhar para ocupar espaço na mídia e permanecer em evidência. Já fez várias coisas nesse sentido: publicou livros, criou um instituto com seu nome etc. Mas tudo isso lhe rendeu pouco tempo de mídia e sem o retorno que esperava.  Por fim resolveu chocar, atrair pelo espanto. Que fase é essa de FHC? Segundo Francisco de Oliveira: “ele agora é um ser patético”.

O ser patético é esse que criou essa “causa” da maconha para ter mais tempo de exposição na mídia. A causa de FHC hoje é totalmente baseada no THC. Cuja tese é: o método repressão não deu certo então devemos liberalizar. Não tem como não repetir o que Francisco de Oliveira disse: “ser patético”.

Vejamos: A forma de repressão deve ser examinada, com certeza. Mas precisa ser examinada em todas as suas dimensões. Primeiro, esse modelo de repressão exportado para o mundo inteiro nasceu na ONU e cujos mentores e principais interessados são os Estados Unidos, que visando garantir sua presença em diversos países do mundo estabeleceu um paradigma de repressão militarizada.

Será que só há um modelo de repressão possível? O fracasso do método usado é a comprovação de que a saída é a liberalização?

O insucesso do método repressão utilizado até o momento não pode servir como argumento válido para liberar o uso de maconha. Pensar assim é coloca a repressão como um fim em si mesmo e como causa de todos os problemas gerados pelo uso da maconha. Segundo, onde fica o custo social da utilização massificada da maconha? Quem vai poder comprar e fumar livremente? Todos? A regulamentação do comércio vai acabar com a criminalidade e a violência? Por quê?

A regulamentação do comércio em si não acaba com criminalidade. O cigarro é legal, mas hoje presenciamos um avanço da criminalidade nas fronteiras movida pelo contrabando de cigarros.

O Estado é propositalmente coisificado pelos defensores da liberação da cannabis para sustentar seus argumentos. Dentre esses argumentos aparece, pasmem, o que a regulamentação vai aumentar a arrecadação. Pode? Então qualquer coisa vale regulamentar para aumentar a arrecadação? Aumentando arrecadação é válido? O cigarro serve também como exemplo contrário a isso. O contrabando dá prejuízo à Receita.

Para aumentar a arrecadação basta tornar mais eficiente os mecanismos de fiscalização e de cobrança dos tributos. Se a questão é aumentar a arrecadação basta aumentar 0,5% de imposto sobre o cigarro (careta) e bebida alcóolica, só com isso os cofres públicos vão “bombar”. Por que não se tenta inibir o alcoolismo com mais impostos sobre esse tipo de bebida?

Os custos sociais são graves em todas as variantes de drogas, lícitas ou ilícitas. São custos que vão desde a desagregação familiar, interrupção de carreira, violência doméstica, criminalidade etc. Os danos provocados pelos cigarros foram reduzidos, nos últimos anos, com ações massivas de desestímulo ao consumo, medidas proibitivas, que resguardam espaços e ambiente do tabagismo. Como então pensar na liberação da maconha como solução? A falha do combate às drogas não é prova que liberar o consumo vai ser um sucesso.

Usar a Holanda como exemplo a ser seguido é ridículo, principalmente ocultando que nesse país tem crescido a insatisfação popular com o turismo das drogas. O governo já estuda medidas de restrição a esse atrativo turístico. Isto é, o governo começa a sentir a pressão interna.

Para completar, os defensores dessa tese da liberação da maconha, não são afeitos à democracia. Não querem nem saber de plebiscito sobre a questão. “A população não está preparada”. Assim falou o diretor do filme pró-THC Quebrando o tabu. A população não sabe o que quer? Quem sabe? Só quem sabe é os militantes da cannabis? A proposta é também arrogante, elitista e autoritária.

Precisa-se de pesquisas que abordem se a maconha é ou não porta de entrada para o uso de outras drogas. Isso  é o que precisa ser posto em debate. Precisamos saber se os consumidores de maconha já experimentaram ou não outras drogas, em com qual frequência etc. O que mais importa saber são as consequências para os usuários em uma situação de uso regular e em maior quantidade. Outro ponto é tipo a ser comercializado.  

Outra fragilidade dessa proposta é pensar o traficante, a violência e o vício de forma romantizada, ou em alto grau de glamourização. Em nenhum momento foi discutida a busca incessante de lucratividade dentro desse processo. Também choca a forma simplista de ver a solução da violência e da criminalidade. É tão simplista que coloca a produção da violência somente em lado: o traficante.  Qual comerciante ou industrial não vai buscar ter maior lucratividade? Certamente os empresários da maconha vão tentar agregar mais valor ao seu produto; utilizar a propaganda para garantir maior consumo; diversificar o produto e, com isso, oferecer maconha com maior quantidade de THC. Ou você acredita que vão vender maconha sem THC, tipo gospel?  

Os defensores da maconha ainda não apresentaram dados que neguem resultados de pesquisas como tais como essa:
Pesquisadores do Department of Physiology, Trinity College, Ireland, realizaram um estudo muito interessante com culturas de neurônios expostos ao THC. 
Um dos efeitos conhecidos da marijuana é a debilitação da memória - principalmente a da memória recente. No estudo, Veronica Campbell descobriu que o THC induz os neurônios a mudanças morfológicas degenerativas e à formação de corpos apoptóticos - produtos da apoptose, isto é, morte das células. O grupo trabalhou com culturas de neurônios que foram expostas a 3 preparações: um placebo de controle, uma solução 5 mM de THC e outra solução de mesma concentração de THC, mas com a presença de AM251 – um antagonista ao THC. Os autores indicam que seus resultados podem ser útil para esclarecer o mecanismo da degeneração cognitiva associado ao consumo de marijuana.”  

Além desses resultados já são conhecidos os efeitos da combinação maconha e etanol. “Muitas vezes o etanol e o THC são usados em conjunto: é comum usuários beberem e fumarem maconha ao mesmo tempo. Nestas ocasiões, grande parte dos usuários experimentam os efeitos da maconha de uma forma mais rápida e intensa. Um grupo de cientistas do Behavioral Psychopharmacology Research Laboratory, na Harvard Medical School em Belmont, MA/US, decidiu tirar esta história a limpo: seu trabalho investiga a relação entre o consumo de álcool e o nível plasmático de THC, além de medir os efeitos subjetivos da droga combinada com o etanol. Seus resultados indicam claramente que o álcool altera a farmacocinética da absorção do THC. O incremento da concentração de THC no plasma sanguíneo - e a consequente potencialização de seus efeitos podem ser a causa da mistura etanol/THC ser tão popular entre usuários, principalmente adolescentes.

Os efeitos e consequências da maconha comum são: “Logo nas primeiras tragadas do baseado, o usuário se sente eufórico e mais susceptível a longas gargalhadas. Outro fenômeno comum é a dislexia, ou seja, a dificuldade de manter a concentração em um determinado assunto: a marijuana parece perturbar o fluxo contínuo das idéias. Outro efeito bastante conhecido é a perturbação da memória: indivíduos que fumam maconha tendem a esquecer mais facilmente e, também, apresentarem sérios problemas de memória a longo prazo.

“Resumidamente, pode-se dizer que a maconha provoca uma leve euforia, distorções espaço-temporais, alteração do humor, taquicardia, dilatação dos vasos sanguíneos oculares, secura da boca e tontura. Entretanto, doses mais elevadas podem vir a provocar uma intoxicação aguda.

Ora, os efeitos da maconha mais potente são devastadores. “Neste caso, o usuário tem fortes alucinações audio-visuais, ansiedade, depressão, reações paranóicas e outras psicoses, além de incoordenação motora e desconforto físico.”

Max Weber sentenciou que dois pecados são mortais para um político: a) não ter causa; b) não ter princípios. FHC não deve estar mais se lembrando dos princípios. Eis o legado final e patético do ex-príncipe: saiu da teoria da dependência para uma prática da dependência.


Maiores informações sobre as pesquisas da Dra. Veronica Campbell estão disponíveis em: http://www.medicine.tcd.ie/physiology/research/research-projects/veronica-campbell.php
O Behavioral Psychopharmacology Research Laboratory é atualmente dirigido pelo Dr. Scott Lukas. Trata-se de um laboratório de pesquisa clínica cujo foco é a investigação das bases neurobiológicas de drogas e álcool. Para obter mais informações: http://www.mclean.harvard.edu/research/neuroimaging/bprl.php


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