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A MORTE MAIS BARATA


 TEXTO RETIRADO DO SITE:  www.infa.org.br 
Morte mais barata



                              Helio Amorim
                                Membro do MFC

"O oxi custa menos que o crack que era até agora o mais barato e mortífero veneno. Chegou dos Andes pelo Acre, se espalhou pela Amazônia e já chega ao nordeste e sudeste. Estávamos preocupados com a destruição da flora e fauna do norte verde e não percebíamos a fauna humana sendo dizimada por essa praga branca.
Crianças desde cinco anos e adolescentes perambulam pelas ruas de Rio Branco, olhar perdido, agitados ou prostrados nas calçadas.
O efeito da droga dura poucos minutos. Segue-se uma ânsia incontrolável por uma nova dose de 5 reais. O dinheiro acaba. A solução são pequenos furtos nas ruas e em casa, o tráfico da droga e a triste prostituição infantojuvenil.
Os relatos são assustadores. Meninas de idades entre 8 e 14 anos cercam caminhoneiros na rodovia BR-317 e oferecem programas de 2 a 5 reais para comprar o oxi. Também senhoras idosas viciadas disputam esse mercado.

No Maranhão, a pesquisadora Selma Marques lamenta: “Antes era maconha e cocaína. Éramos felizes e não sabíamos. Por serem de fácil acesso e baratos, crack e oxi ganharam espaço”. Os traficantes no início dão a droga de graça para a criança. A dependência é imediata. Logo começam a cobrar por serviços e finalmente em dinheiro. O governador daquele estado afirma que “de cada dez homicídios, oito são provocados pelas drogas”. No Piauí surge um derivado perverso, a brita, mistura de crack, cimento e ácido.

Pelo preço elevado da cocaína pura, esses produtos também são disseminados nas classes médias, entre adolescentes que já gastaram a sua mesada e precisam de droga barata. É o começo do fim. Retorno quase impossível. A morte pode chegar em poucos anos de vida sofrida e miserável.

Há organismos de governos e outros não-governamentais atuando nessa batalha mortal. Mas a praga se espalha com rapidez incontrolável. O baixo preço dessas drogas exige novas estratégias de guerra.

Governos de países vizinhos que produzem cocaína, base necessária dessas novas armas destruidoras, devem ser interpelados para intervir na cultura e nesse comércio de fronteiras. É mais lógico e factível intervir nas linhas de produção do que fechar hermeticamente as extensas fronteiras terrestres de regiões de baixa densidade demográfica. Acordos internacionais para conter o tráfico devem ser feitos com o mesmo empenho adotado no planeta contra a proliferação de armas nucleares.

Uma ação interna coordenada em todos os níveis de governo e forte envolvimento de organizações sociais deve ser intensificada como prioridade nacional, antes que essa tsunami silenciosa envenene a parte mais frágil da população, os pobres e as crianças, até então protegida pelo preço caro das drogas.

No cenário histórico do mundo das drogas tradicionais, os resultados mais contundentes da repressão policial têm sido financeiros, com poucas prisões. As apreensões desses produtos mortíferos dão prejuízos monumentais aos traficantes que vivem tranquilos em suas mansões luxuosas. Nem sabem onde estão as favelas e pontos de venda em que atuam os seus revendedores, chamados “pés-de-chinelo”. Suas contas bancárias são apenas arranhadas por esses dissabores eventuais.

Suspeitamos que são conhecidos em delegacias policiais que também conhecem seus endereços com vista para o mar. Bandidos costumam ser generosos com quem respeita a sua merecida privacidade.

Mas esse quadro não pode continuar. A guerra contra as drogas tem que ser municiada com tanto fervor como o do combate ao desmatamento da floresta que se tornou porta de entrada da nova praga barata."

Quando as notícias acentuam as idades das vítimas principais da droga, logo recordamos outra tragédia, esta em escola, em Realengo, na cidade grande, que comoveu o país e reverberou mundo afora. Um psicopata de evidente comportamento estranho frequentou a escola durante anos, sofreu bullying, foi humilhado com frequência cruel pelos colegas adolescentes, acumulou mágoas em suamente enferma e ninguém percebeu que uma bomba estava sendo armada. Poderia ter sido desarmada a tempo. Doze crianças e adolescentes estariam vivos. Explodiu, doze morreram. Jamais esqueceremos.




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