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LABIRINTO MORAL



“A sociedade é uma criação humana. Como tal é falível e frágil. Não existe instinto de moralidade social ou observância da lei.” (Hobel & Frost).

Durkheim deixou uma boa dica para responder um dos enigmas da grande esfinge: a vida social. Ao pensar a existência da vida coletiva constatou a importância do consenso nesse processo. Isto é, uma ordem, um determinado nível de regularidade. Daí destacou a moral como elemento significativo dessa trama. Cada sociedade revelava um tipo específico de solidariedade, e pela qual viabiliza a teia de interações sociais que a põe em funcionamento.

O mundo social não pode existir sem valores, sem norma. Uma crise moral impele a uma situação de incerteza. O conceito de anomia foi utilizado por ele para indicar situações em que a norma, ou melhor, os mecanismos de orientação da vida social já não atuam mais.

Mas durante todo o restante do século XX inúmeros interpretações surgiram para desqualificar e desvirtuar o sentido da interpretação. Esse trabalho desqualificador, em boa medida, foi desenvolvido por setores dos marxistas, uns por pura estupidez e ignorância e outros por sectarismo e pura maldade. Em geral, os aspectos da ordem social foram “criticados” como sendo doutrina conservadora e reacionária. 

A estupidez desses marxistas os impediu de entender que a ordem, no sentido  sociológico de  Durkheim, significa regularidade e, conseqüentemente, previsibilidade. Os desqualificadores de Durkheim viam na noção de equilíbrio um empecilho à revolução; à noção de consenso atribuíam uma tentativa de  alienação e mascaramento do conflito de classe. 


Essa postura desconsiderou a fecundidade de observações importantes sobre a realidade social, particularmente quando utiliza a divisão social do trabalho como elemento caracterizador do modo de vida social. Especialização, liberdade e formas de direitos são articulados a um só tempo para trazer uma explicação da forma de existência da realidade social a partir do social. A explicação do social ocorre pelo social. Argumentou e fundamentou sobre o nível de integração social como causa de certos desdobramentos do comportamento adotado por alguns indivíduos. Destacadamente fez isso quando abordou o suicídio. 

Não perceberam que Durkheim apontava para uns dos graves problemas da sociedade moderna: a violência. 

O enfraquecimento moral permite ações fora dos parâmetros de tolerância e de previsibilidade e coloca em risco todos os indivíduos. A violência transcende classe e qualquer modo de produção. O controle social pode ter ou não eficiência em qualquer modo de produção ou modelo de economia e mercado. 

A obra interpretativa (não mera descrições) de Durkheim tem mostrado consistência, vitalidade e grandeza diante dessas estúpidas interpretações de conveniência, o que mostra sua fecundidade sociológica. Além disso tem o primor da escrita e da erudição.

A sociedade da insegurança revela a importância dessas dicas interpretativas de Durkheim. Principalmente, quando assistimos uma forte inversão de valores, onde o imoral deixa de ser a exceção e o execrável, mas vira rotina e ganha cada vez mais tolerância. Isso tem ou não relação com elementos morais?; estão ou não envolvidos com a dimensão de valorativa?; há ou não uma perda da eficiência da norma?
O declínio de valores aprofunda ou não as anomias no cotidiano?
Negar o conteúdo valorativo na ordenação da vida parece perigoso. Quem dera fosse só o econômico...  (originalmente publicado em ethospolitico.zip.net)

* Arte de Yoan Bernabeu



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