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A REALIDADE E SEUS QUADRADOS



As enquetes de opinião apontam uma aproximação entre Dilma e Serra, mas poucas pessoas pararam para ver os números do quesito “Indecisos, brancos, nulos e nenhum”.
Na eleição presidencial de 2006 estavam aptos para votarem 125.913.134 eleitores. Compareceram 104.820.459 eleitores no primeiro turno (taxa de comparecimento igual a 83,248%). Os votos brancos e nulos totalizaram 8,418% dos que compareceram (2,734% e 5,684% respectivamente).
Não há como negar que essa Abstenção de 16,752% deu sua contribuição no resultado. Pois 21.092.67 eleitores deixaram de optar. Dificilmente todos esses votos seriam convertidos em brancos ou nulos.

Nenhuma pesquisa pré-eleitoral (de intenção de voto) considera essa variável, porque é difícil prever confiavelmente o tamanho da abstenção. A Abstenção está ligada, em grande parte, a casos fortuitos, oscilações emocionais/afetivas, tragédias, imprevistos de várias ordens etc. Mas é possível arriscar um “chute” com base nas eleições anteriores, adotando os números como tendência ou em termos de probabilidade.

Em 2002, os eleitores aptos somavam 115.253.816. O comparecimento foi de 94.805.583 eleitores. Isto é, a Abstenção ficou na marca de 17,742%. Comparando os dois pleitos, observa-se que a Abstenção não sofreu uma variação brusca, mas é importante destacar que foi menor em 2006.

Os votos brancos e nulos, no primeiro turno de 2002, atingiram a marca de 10,390%. Comparado ao percentual de brancos e nulos da eleição de 2006, observa-se que, em 2006, houve um decréscimo próximo a 2%. Variação maior do que a encontrada na Abstenção. Na eleição presidencial de 1998 (primeiro turno) a Abstenção foi de 21,492% e os Brancos e Nulos totalizaram 18,698%. Quando observamos esses percentuais ao lado dos percentuais das duas eleições posteriores, os números ganham mais significado, pois possibilitam pensar as variações percentuais como uma tendência de queda na Abstenção e nos votos Brancos e Nulos.

Ora, os atuais números das pesquisas do DataFolha e do Sensus apontam, respectivamente, 19% e 21,4% de “Indecisos, Brancos, Nulos e Nenhum”. Isso exige atenção para com o que já expomos acima sobre os votos brancos e nulos. A média de votos brancos e nulos das últimas três eleições presidenciais é de 12,5%. As variações percentuais mostraram que houve um decréscimo nos votos brancos e nulos. Entre a eleição de 1998 e a de 2002 houve decréscimo de 8,3% nos votos brancos e nulos. Já entre a eleição de 2002 e a de 2006 o decréscimo atingiu 1,9%. Ao mesmo tempo em que observamos a continuidade de um decréscimo no número de votos brancos e nulos, observamos também uma significativa redução do ritmo desse decréscimo. Estamos entrando numa estabilização desse percentual de votos Brancos e Nulos?

A continuidade ou não desse decréscimo de votos Brancos e Nulos depende muito do ambiente político. A aprovação do governo Lula pode ser um indicativo de ambiente político positivo. O sentimento de governo de resultado e/ou de bom governo pode motivar a participação em prol de candidaturas. Nesse caso, o ambiente político passa a ser dinamizado pela mentalidade de que vale a pena participar e que basta votar na pessoa certa para que haja bons resultados. Os escândalos parlamentares recentes podem ter consequências distintas: a ausência, o distanciamento, a indiferença ou o desejo de participar para depurar, moralizar e de punir determinados grupos políticos e seus aliados. Se o ambiente político se mantiver positivo cresce a probabilidade de prevalecer a participação moralizadora como reação aos escândalos. Cabe às campanhas traduzir quem são os aliados da moralidade e quem representa a corrupção política, o atraso político.

É plausível, diante disso, considerar que 19% de Indecisos, Brancos, Nulos e Nenhum é um número ainda alto para fazer apostas seguras. Por outro lado, esse agregado de modalidades de intenção de voto cria mais margens de dúvidas do que de esclarecimentos. Para onde vão os Indecisos?, é Indeciso ou tem vergonha de assumir sua opção?, é Indeciso ou quer manter o segredo do voto?, a Indecisão é sobre os candidatos ou sobre o que fazer na eleição (votar ou não votar, votar branco ou nulo ou não votar)?

E o Nenhum é o que? Significa que ainda não parou para pensar? Significa que vai anular, votar em branco ou abster-se? Etc, etc...

As pesquisas assumem cada vez mais um caráter publicitário e vão diminuindo seu potencial de ferramenta de investigação que possibilite análises e interpretações que busquem ser mais sinceras e mais próximas possíveis da situação do campo de disputa política, em conformidade com a perspectiva adotada.

Enfim, tudo indica que o período de campanha eleitoral vai ter que ser explorado a extremo e o desempenho no enfrentamento vai ser crucial desde o primeiro momento. A incógnita agora paira mais sobre Dilma que, mesmo subindo nas pesquisas, nunca ficou sob o fogo cruzado de uma campanha. Será que (além dos votos) Lula vai ter que transferir também sua blindagem? Como o eleitorado vai reagir diante das respostas dadas por ela? Todos sabem que isso não depende só de preparo intelectual, mas depende do talento de convencimento, conquista de credibilidade e inteligibilidade do discurso. Necessita também, está provado, de muito trabalho. Quem apoia a candidata não pode se deixar tomar pela euforia da subida nas pesquisas, ainda é muito cedo. O melhor a fazer agora é continuar trabalhando arduamente.

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