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O depoimento de Lula


O depoimento de Lula não é algo restrito ao fato jurídico. Lula depondo tem uma dimensão simbólica de grande proporções que pode ser interpretado por diversos ângulos, desde ao que se refere à situação de ser um ex-Presidente da República que está sob o olhar da justiça (o caráter excepcional) até a da repetição secular das punições serem mais eficientes quando o implicado não é membro de uma família de longa tradição de riqueza e poder (a visão dos pobres como vítimas preferenciais). Essa importância dada ao fato não significa que o ponto de partida seja a crença na inocência Lula, nem uma vitimização dele para abraçar a tese de que ele deva ficar acima das leis e do bem e do mal. Não é isso, mas do significado para além do jurídico e do campo da normativo/processual/jurídico. O que pode resultar socialmente sob o olhar do povo. 

O ex-Presidente depondo pode ser um ótimo exemplo para reforçar a crença de que estamos passando por um processo de renovação e depuração das instituições, particularmente as jurídicas e políticas. Algo interpretado como um processo de depuração e renovação rumo ao aprimoramento ético/institucional (uma nova política, fim da impunidade e efetivo combate à corrupção levada a cabo por uma nova justiça). Isso tem sido o mote e bandeira de uma parte da sociedade que equivocadamente tem sido rotulado como exclusivamente de classe média e vista como homogênea, o que não é. Não só é composto por classes médias diversas como é bastante heterogênea em interesses e projetos. O que não permite pensar desfechos tão tangíveis que contemplem a essa totalidade significativamente heterogênea. O caso Temer e Reinaldo Azevedo são emblemáticos para sinalizar a heterogeneidade: enquanto uns os defendem outros os vêem como parte da "velha política" e merecedores de punição e  não merecedores de credibilidade. 

O caso Aécio, recentemente revelado por delação, também é emblemático, porque serve tanto aos que dizem que as investigações da Lava Jato não está privilegiando ninguém, como aos dizem ao contrário (séquito lulista), afirmando que  a operação Lava Jato é uma conspiração contra Lula que envolve até a CIA (a agência de espionagem dos Estados Unidos). Além disso, existem os que, diante do caso Aécio, aproveitam para dizerem, sem pudor algum, que todos são assim, mas eles são melhores e diferenciados na corrupção. 

Na dimensão empírica temos a estatística que aponta que os órgãos de repressão, de investigação, julgamento  e aplicação das penas tem tido mais celeridade e eficácia quanto aos indivíduos de menor poder econômico e político. Algo considerado histórico. Lula, mesmo não cabendo mais na forma explicativa do "pobrezinho", coitadinho" e de "uma vítima do sistema", mas é inegável sua origem familiar e social inscrita entre os mais pobres desse país. Porém, isso não pode ser um fator de criação de exclusividades e privilégios, de um "cidadão incomum" (termo do próprio Lula) acima das leis e do bem e do mal tal qual requerida pelo seu séquito mais radical. Mas, para além do séquito, há uma vasta população de simpatizantes que relativizando, ignorando ou pautado em outra moralidade o ver como desmerecedor de tal tratamento ou que mesmo que verdadeiras tais coisas são irrelevantes. 

Ora, a realidade não está restrita a essa simplificação de dois lados. O que tudo parece as fraturas e disjunções vinham crescendo silenciosamente nos últimos anos e, mesmo diante da gravidade da situação atual, elas parecem que ainda não se revelaram completamente. 

Quais os interesses e forças possuem maiores potencialidades para pactuar e assumir uma condição dirigente e de renovação? 

O conteúdo do depoimento de Lula quase era um nada. Ele quase não disse nada, salvo para atribuir algumas preferências à Marisa. 

O que fica mais evidente é que a alta capacidade de manobras e a expertise dessa elite política de ficar impune parece estar conspirando contra ela mesma, particularmente no aprofundamento de sua falta de credibilidade e sua deslegitimação. Todas as manobras feitas até agora configuraram um exercício de se esconder atrás da própria sombra. Ninguém se esconde atrás da própria sombra e isso certamente terá consequência no campo prático da Política, porque há hoje uma exigência difusa, multifacetada, mas continuada na sociedade brasileira. Essa exigência (que implica renovação e fim desse ethos político/partidário) não tem concerto com essa "velha política" e isso já está mais que evidente. 

Manter Temer não é uma solução para evitar Lula (é um absurdo). Usar Temer para alavancar a volta de Lula não exclui o PT/Lula do rol do que a exigência de renovação não quer mais (outro absurdo). Isto é, PT,PMDB,PSDB (e seus satélites, parasitas e comensalistas) estão irremediavelmente identificados com o pior da nossa política, logo qualquer um deles no poder não diminuirá as tensões e não reduzirá a crise a um patamar de menor perigo para a Democracia e a Governabilidade. 
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