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Matança em Paris e o nariz do ocidente

O terrorismo não é novo. Existe desde tempos remotos. O terrorismo moderno é mais complexo. Com o advento das grandes potências bélicas e o avanço das armas de destruição em massa, as inovações tecnológica nos aviões de guerra e os mísseis tornaram a guerra convencional sem sentido, impossível e impensável para grande parte dos países e grupos insurgentes. A Guerra do Golfo não explica tudo, mas não pode ser descartada nesse problema. A invasão do Iraque e a desestabilização dos regimes autoritários na Líbia e na Síria criam ingredientes novos para essa forma de jihadistas. 

Esse modelo de organização como Estado Islâmico (EI) se articulam mais facilmente em países de liberdade civis, mais democráticos, onde podem difundir mais facilmente sua ideologia e fazer recrutamento pelas mídias. Vide o número de adeptos que conseguiu fora da Síria e Iraque. A invasão do Iraque, a morte de Saddam, a redução do Talibã e a presença constante de tropas ocidentais no Oriente Médio, Afeganistão etc. deram força ao apelo de resistência e de identidade de causa: o Islã, em uma versão muito particular. Com a Al-Qaeda esfacelada e o Talibã empobrecido as condições de expansão ao Estado Islâmico junto às tribos, principalmente aos grupos que passaram a se sentirem perseguidos, como os Sunitas no Iraque. O Estado Islâmico apareceu como a melhor alternativa para enfrentar o inimigo ocidental, porque está bem armado e com dinheiro, o que facilitou também a adesão. Nas áreas mais empobrecidas montam um sistema de assistência (alimento e remédios), uma forma de cooptação para ganhar legitimidade. 

Bem, mas isso também não diz tudo. Como o EI chegou a crescer tanto sem ser efetivamente combatido pelas potências? Cumplicidade e omissão. Cresceu porque foi visto como útil pelas potências para derrubar os regimes da Líbia e da Síria. A maior frente de combate na Síria contra o governo de Al-Assad não é composta por sírios opositores ao governo, mas de estrangeiros (mercenários). O EI era visto como o mal útil para o objetivo das potências ocidentais. Foi permitindo o EI ocupar parte do território sírio e tomar conta do petróleo existente nele que deram condições financeiras para suas operações e avanço.

Essa aposta de deixar o EI destruir todos os indesejados para depois intervir não deu certo. Virou uma grande tragédia. Primeiro, promoveu uma destruição sem sentido da Síria, deixando os civis entregues à própria sorte, seguida de uma matança enorme. Segundo, produziu um deslocamento de massa sem precedentes que tensiona diversas fronteiras e compromete a segurança de vários países. Além de inúmeros outros problemas como de abrigar, alimentar e incorporar todo esse contingente de pessoas. Pessoas que querem um outro lar, mas não necessariamente renunciar suas crenças e todos os valores que carregam. 

O componente novo nessa crise foi a ação da Rússia sem meio termos. A Rússia verdadeiramente entrou para combater o EI. Não mediu esforço e nem poupou a força bélica. Ora, a Rússia estava vendo a inércia dos demais e principalmente dos USA, enquanto a expansão do EI ia na direção do Irã e se aproximando das fronteiras russas. Esse último mês foi crucial para o EI perceber que não pode entrar em uma guerra convencional com Rússia, que a diferença bélica tecnológica são enormes e que precisava reagir para mostrar vitalidade. O terrorismo é arma que sobra a esse tipo de grupo. Os atentados causa horror e criam tensão sobre o que é um ícone ocidental: o direito às liberdades, os direitos civis. O EI consegui forma uma rede de apoio bem maior que todos os grupos terroristas que já existiram, tem uma estrutura de comunicação e um esquema de uso da internet profissional, o que faz diversos membros espalhados pelo mundo permanecerem informados. Além disso, articula ações a partir de membros solitários, que permanecem ocultos e inertes até o momento do ato terrorista. Isso tudo faz o EI ser difícil de ser combatido no seu todo, mas a ocupação e tomada de cidades deu-se graças à omissão das potências. 

Ao contrário do que muitos pensam, os membros do EI não podem ser explicados de forma simplista como indivíduos loucos. Os propósitos podem ser discordantes, podem ser contrários aos nossos. Os objetivos deles podem ser radicalmente contrários a valores que prezamos, mas pensar que não agem de forma consciente, planejada e que não buscam nada é errôneo. Eles não demonstram ter dúvidas do que querem e porque querem. Quando as torres gêmeas foram atacadas nos USA, a Al-Qaeda derrubou prédios que abrigavam diversas empresas (3% de todos os escritórios de Manhattan) de diversos países e abrigava um dos maiores shoppings dos USA. Ícone do capitalismo ocidental. Não menos icônico é esse último ataque à França (Paris), pois vai de encontro aos lemas de Liberdade e Igualdade difundidos com a Revolução Francesa e incorporado ao ethos político ocidental, não só isso, a secularização e Estado laico. Paralelamente esses ataques vão de encontro ao arranjo ocidental de coexistência de democracia, capitalismo e Estado laico. Fere a ideia de liberdades individuais e pluralismo. O EI não quer política, quer religião e governo pela Sharia.  

Porém, as sociedade ocidentais, independentemente do terrorismo já vivem os horrores e a falência de várias promessas da Modernidade. Existem inúmeras crises no mundo dito ocidental, o terrorismo como ferramenta de guerra veio para ser o conturbador extra. 

Será que esse atentado em Paris é o fim da nossa capacidade de recriação e o enterro da promessa ocidental moderna de liberdade, igualdade e fraternidade? O fracasso de nossas utopias nos submeterá um estado permanente de terror canibal? Falimos e sucumbiremos? Essas versões de islamismo seduzem, mas o que temos hoje para seduzir? 

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