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Dilma, legitimidade e o "apoio maranhense"

Qualquer equação com o elemento político Dilma apresenta múltiplos resultados. Hoje realmente estamos diante de uma crise política. Que tal lembrar Gramsci? E pensar essa crise em três atos: O PT (partido dos trabalhadores) chega ao poder como um elemento tardio dentro do lastro da crise de hegemonia que gerou o golpe de 1964 e, pragmaticamente, vai se manter no poder como Vanguarda do Atraso, aproveitando-se das crises conjunturais multi-céfala. O ponto crucial é que a saída da Ditadura pela via da "conciliação" nos marcos da transição lenta, gradual e segura estabelecida pelos militares já exauriu todas as combinações possíveis, chegou ao seu total esgotamento. Estamos diante do riscos de uma abertura de uma crise orgânica. O tempo encurta. Qual a ânimo ainda contido na massa silenciosa? 

Nesses últimos trinta anos não apareceu nenhuma força aglutinadora capaz de sinalizar um projeto político novo para o Brasil. A defasagem política perpassa todas as frações e setores sociais, é geral e de volumosa. O PT no poder mostrou que não tinha nenhum projeto político amplo, renovador e capaz de formar novos pactos políticos. O PSDB (partido da social democracia brasileira)  já tinha mostrado sua total dessintonia com um projeto político novo. O PSDB não consegue falar para os mais simples e assumir o que emerge das ruas. Logo, esse desejo de renovação foi transferido totalmente ao PT. O PT deu espaço aos segmentos políticos/partidários que mais representavam o atraso, o ultrapassado, o velho. Ao invés de crescer como um agente de uma transformação mais profunda, o PT mergulhou em um pragmatismo pelo poder cego. Ato suicida. Não só isso, afastou o circulo de produção crítica, os intelectuais de pensamento mais reflexivo e inovador e como isso também proibiu a expressão utópica. Virou a vontade de um homem só: Dirceu, um ego doente e perigoso. O PT e PSDB não realizaram aquela catarse gramsciana. 

A crise que aí em pleno vigor é difícil caber em uma só equação. Destaco, de imediato, dois complicadores graves: 1- a falta de uma oposição programática, propositiva e próximas aos movimentos reivindicativos atuais; 2- a inexistência de um projeto político transformador, como ampliação democrática e renovação das nossas bases institucionais. A questão é: esses complicadores pertencem em que grau ao nível conjuntural ou estrutural? Daí podemos enumerar uma série de problemas de ordem institucional e não institucional. Logo é uma crise agudamente política porque atinge a vida política no seu todo e a ideia de Estado. A crise, obviamente, é da ausência de respostas às demandas sociais, política e de participação e somada a uma estrutura institucional corrompida em todos os sentidos. 

O Brasil não fez um pacto político novo, não teve reformas sérias e profundas na área fiscal/tributária, administrativa, política. O Estado como um todo não sofreu qualquer alteração significativa, porque não existiu Reforma Política. O federativo atual, com essa ideia de municipalização é um absurdo, que só tem gerado mais ineficiência e desvio de recursos públicos. A corrupção virou uma rotina do ponto de vista econômico, mas a sua densidade é corrosão do valor da confiança. Os indivíduos a quem foi confiado o comando da coletividade trai o sentido do exercício do poder lhe foi confiado. A corrupção em essência não está restrita no monetário, mas em ir de encontro ao que funda o Político. A corrupção é gravíssima e agudiza a crise política. 

 A situação política de Dilma e todo seu governo é de um defunto no meio na sala... situação de velório continuado. Ninguém mais lamenta a morte, mas o inconveniente da falta de destino do cadáver. O morto acaba simbolizando a crise: o velho que não responde mais e o novo não chegou. 

O encurtamento crítico e a perda da capacidade de constatação da realidade impossibilita o PT ainda mais de somar apoios e firmar compromissos de base Política. O desgaste com os escândalos de corrupção e as fórmulas delirantes de responder aos escândalos deslegitima o partido de convocar a qualquer pacto. O PT queimou seu capital político e não se deu conta disso. Não há golpe em curso. O que está em curso é a perda de legitimidade política. A legitimidade dada pelo voto na eleição precisa ser reiterada durante o exercício de governar. Porque o exercício do poder político não é confiado sem atribuir responsabilidades. Ora, em ambientes democráticos e republicanos a opinião é parte governança, serve à governabilidade e é inseparável da vida verdadeiramente política. O que perdeu legitimidade não foi a eleição de Dilma,  a eleição não é a questão central do momento, mas o exercício do poder político que lhe foi confiado. Em democracia a maioria é sempre flutuante. Agora 71% da população brasileira estão desaprovando o governo de Dilma. Mas não é só isso, perdeu legitimidade política, porque perdeu aceitação, confiança e, logicamente, respeito. O que a Presidente fala vira piada, mesmo que seja um tema de seríssima importância. 

Não há golpe, mas as exigências legais de um Estado de Direito Democrático pesando sobre o mandato de Dilma, que envolve o fato de respeito à Lei de responsabilidade fiscal, falhas na prestação de contas etc. Vão suprimir a legalidade em favor do quê? O desrespeito aos marcos legais, que caracterizam a própria institucionalidade da Presidência, não é uma perda de legitimidade? ou só uma falta legal? Volto à imagem do velório prolongado, o defunto sem rumo. O impeachment tem como consequência o repasse do poder a Temer. A renúncia também coloca Temer na Presidência. Que solução e clima político pode produzir de diferente o Temer? A maioria dos opositores de Dilma não acham nisso o desfecho positivo. Quem assumiria o risco de tirar o mandato via TSE e provocar uma nova eleição? Nova eleição parece ser o mais desejado, mas faz do PT vítima. O PT ganha sobrevida como vítima. O que fazer com Dilma? É exatamente ausência de uma posição como resposta que prolonga essa situação. Isso é muito ruim diante do agravamento das situação econômica do Brasil. 

Está na hora de algo ser feito a favor do Brasil. Quem realmente vai fazer algo pelo Brasil? 

Quanto ao apoio maranhense à Dilma, resumo da seguinte maneira: tem Holandinha, o mais novo aliado DEM. Cadê aquela multidão de vereadores e prefeitos que vieram tirar foto com Dilma e Lula na época do lançamento do projeto de implantação da refinaria Premium? É isso. O maior apoio dado pelos maranhenses foi ignorar no lugar de hostilizar. 

O que é real é que a realidade é bem maior e mais complexa que a nossa explosão emotiva... A realidade às vezes é totalmente surda aos nossos gritos. 

  


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