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As Reinações de Zé Reinaldo (a transição de conciliação)

Faço aqui algumas considerações sobre o texto atribuído ao ex-Governador José Reinaldo, conforme foi publicado no blogue do jornalista Diego Emir.

Antes de tudo, quero dizer que não vejo nada demais na proposta do ex-governador José Reinaldo. Mas algumas coisas considero passíveis de indagações. 

Resumindo o texto de Zé: o ex-Governador deseja que Flávio Dino etc. faça um pacto com Sarney em prol Maranhão (lembram da Aliança pelo Maranhão feita por Cafeteira e Sarney?), mas diz que esse pacto não seria pacto político. Que Sarney tem que tomar parte, mas não deve ser troca de cargos etc. 

Estranhei o ex-Governador José Reinaldo afirmar que o pacto em prol do povo do Maranhão não ser Político. Se é para garantir projetos para o Maranhão e em benefício do povo desse estado, não tem como não ser Político. Pois uma agenda comum que seja pró interesse público e do bem comum tem que ser Política. A ideia e o conceito de Política desde suas origens estão associados à coisa pública, a negócios públicos. Pois a Política é anterior e maior que a disputa eleitoral partidária, às coligações partidárias e às coalizões. Política nunca esteve restrita ao momento eleitoral... muito pelo contrário, ela é bem mais que isso, é bem mais que o exercício frio e seco do poder. A Política, em essência, sempre reivindicou algo maior, algo que envolva negociações, cooperações, consensos e decisões com objetivos claros. 

Que agenda comum é essa sem ser Política? Agenda comum que trate de interesse público e bem comum é Política. Que agenda é essa, Zé? Caso contrário é concerto sobre interesses estritamente privados...individuais e particularíssimos. Essa visão de política no estrito campo partidário e da disputa eleitoral é complicada, para não dizer lamentável. Ou Zé trocou as letras ou não quis dizer o que é a verdade sobre tal necessidade. 

Os argumentos de Zé Reinaldo em defesa de sua proposta são bem simples e objetivos. Zé Reinaldo começa seu texto reconhecendo, em tom de conciliação, que o ex-Presidente José  Sarney ainda tem algum prestígio e exerce certo grau de influência na esfera do poder federal, que o país passa por um momento difícil e o governo de Flávio vai precisar somar  mais forças para poder realizar ações em prol do povo. Daí a importância de uma aproximação com Sarney em prol do Maranhão. 

Alguns dirão, em tom de ironia, trata-se da velha parábola do filho pródigo. Cá entre nós, a briga de José Sarney e José Reinaldo só eles mesmos entendem. Briga que já rendeu textos de rancor totalmente desnecessários e não adequados a um ex-Governador e a um ex-Presidente da República. Enfim... coisa intestinal do sarneísmo que agora parece ter começado a ter um final feliz. 

O certo é,   a vitória de Flávio, como já comentei aqui nesse blogue, significa um ajuste intra-oligárquico, não uma ruptura com a teia oligárquica que domina cada um dos municípios maranhenses. Além disso, destaquei que havia a possibilidade de uma transição de conciliação (onde um lado ainda retem força a ponto de impedir que a parte sucessora encaminhe tudo ao seu modo). Retirando as intrigas pessoais e demagogias, Sarney não está tão distante do campo político de alianças de Flávio, vide a relação com o PT, Lula e Dilma. Dentre os aliados locais de Flávio há uma série de ex-sarneístas e outros não-sarneístas que não significam nada de diferente (alguém não conhece?).  

Qual a questão central disso? O contexto. Que a gestão de Flávio para realizar as promessas de campanhas e políticas necessárias para combater graves problemas iria depender da situação econômica do país e das condições políticas do Governo Federal é algo que parece bem óbvio. Flávio Dino para fazer um governo útil aos mais pobres e ser um governo regular no geral vai depender que a econômica do país melhore, que melhor controle e equilíbrio nas contas públicas do país. Porém, há um outro componente que nunca é mencionado: o Maranhão se acostumou a ser dependente em tudo e não consegue realizar nada sem o apoio financeiro do Governo Federal. Para complicar a situação, as obras realizadas no Maranhão são com custos astronômicos. Alguém sabe por quê? 

Diante do quadro crítico que vive o país com a crise econômica e o desgaste político da chefe do poder Executivo Federal, as chances de obter recursos e desenvolver projetos agora no Maranhão são reduzidíssimas. 

Onde entra Sarney? Exatamente na crise. Exato na perda de apoio que Dilma sofre no Congresso e junto ao povo e os conflitos internos do PMDB. Sarney e demais caciques do PMDB estão tentando recompor um núcleo e retomar o controle do partido que andava convulsionado pelo Eduardo Cunha. Isto é, as ligações que Flávio tem com Dilma, PT e LULA pouco pesam no momento, tendo em vista que a sustentação e  continuidade do governo de Dilma está nas mãos dos caciques do PMDB. 

Com recursos escassos e previsão de melhoras a longo prazo, o cenário não é favorável ao governo de Flávio. Flávio não tem influência no Congresso à altura de suas necessidades  de governador. Sarney ainda tem alguns recursos e dividendos de influência no congresso, mesmo não sendo do mesmo nível de tempos atrás. A lógica de Reinaldo pode ser de ceder a alguns caprichos dos sarneístas em troca de apoio no plano nacional. O que os ex-Presidente José Sarney quer nesse momento da sua vida além daquilo que alimente sua vaidade, que cheire ao reconhecimento de sua importância? Nada. Tudo que o ex-Presidente quer é reconhecimento. O Ex-Presidente Sarney certamente considera  injustas a avaliação de sua trajetória política e a forma com é tratado. Acontecendo um gesto na forma de honraria, de reconhecimento logo "todas as lágrimas secarão, todas as dores acalma-se-ão."  

Fundação da Memória Republicana e o acervo pessoal dele (Sarney) estão aí mesmo esperando  um termo (acordo). Isso foi só para exemplificar...

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