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Jogo do poder: conciliação e complicações internas


Existem muitos palpites e posturas facilmente tomadas por quem não tem a responsabilidade de decidir e que responde diretamente pelo sucesso e, mais ainda, pelo insucesso. 

O jogo é para ser jogado. Uns jogam só pelo deleite de jogar, pouco importa vencer ou perder. Mas quem quer e precisa vencer no jogo tem que ser sagaz para identificar e deter os recursos disponíveis e necessários para garantir a vitória. Isso, dentro de certo limite, não fere a questão da responsabilidade diante da coisa pública. A responsabilidade com a coisa pública, a ética da responsabilidade precisa ser mostrada é no exercício do poder político, quando efetivamente se é o ocupante do posto de comando. 

Maquiavel deixou um um belo legado, não é nada dessa enxurrada de frases sórdidas tomadas isoladamente. O grande legado é perceber o poder como produção social, tratar o poder como ele é e dentro de contextos que mudam. Mudando o contexto é necessário perceber as mudanças e responder eficazmente às mudanças. 

Nem sempre a vitória vem combinada com o tipo de derrota desejado ao adversário. Se for preciso algum grau de conciliação para vencer, quem quer vencer concilia. Nesse campo de disputa todos estão espreitando o que é melhor para si. 

Só resta uma coisa para Flávio Dino agora... decidir se quer vencer ou só jogar por jogar. Ele já lançou a sorte faz tempo, está encharcado da água do rio, não pode mais abrir brecha para o azar. Só resta jogar para vencer. Agora, nesse contexto, o que estava servindo apenas para fazer lastro tem que ser deixado no porto ou lançado ao mar. O espaço tem que estar livre para a mercadoria útil. O momento está ótimo para descartar pesos inúteis, que não agregam e provocam desgaste, como o chorume vindo da situação. Gente com posições dúbias devem ser abandonadas agora. Caso contrário, a barca vai quebrar na areia da praia ou vai chegar no porto em processo de alagamento. Nesse jogo não tem espaço para o indivíduo querer ser Noé. Alguns vão ter que encarrar a fúria das águas. 

Sarney e Lula são dois dos melhores operadores em torno do poder. O Sarney é melhor na manutenção, na permanência e está jogando certo para uma saída honrosa, conforme sua própria fórmula: "saia por onde entrou". Lula é excelente em tomada de poder... sabe caçar cada obstáculo e conhece exatamente o peso e os riscos das alianças que fez. 

Ninguém vai poder dizer depois que o velho Sarney não fez bons gestos: 1- Livrou Luís Fernando de sabotagens internas e o deixou encaminhado para crescer sozinho, é só ele saber aproveitar; 2- Fez a sorte sorrir para Flávio, o cavalo agora realmente está selado; 3- Vai responder sem alardes aos que internamente complicaram o jogo.
Nesse contexto é  bom lembrar Maquiavel... quando diz que para uns a sorte brilha, mas lhe falta a virtú. 

Onde for necessário fazer gesto ao adversário para garantir a vitória, quem está no jogo para vencer, tem que fazer. Não é ser bonzinho e nem frouxo, é ser eficaz. Se é moralmente diferente e tem outros propósitos à frente dos negócios públicos é só provar durante o período que ficar como Governante. 

Para os Sarney a vida vai seguir tranquila mesmo perdendo a eleição para governador... é um grande grupo empresarial, ainda vai ter largo acesso ao Governo Federal, com ou sem Dilma, o PMDB já provou que sabe se adaptar a qualquer governo. Pode ter um ganho imediato perdendo em tamanho. O tamanho da teia hoje é um peso que onera muito as ações. A grande hegemonia política vai acabar, mas eleitoralmente sobreviverá aqui e ali. A questão é: quem vai servir, do que restar, para renovar o quadro, manter um núcleo mínimo coeso e, nas crises, coordenar ações de grupo (?). 

Aos pobres e humildes (como nós) resta lutar, berrar e rezar por dias melhores, pois as questões postas até aqui são exclusivas dos que habitam os andares superiores... 

Ps.: O PT com Sarney é novidade ou espanto para quem? 

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