Pular para o conteúdo principal

Na estrada com Elias


Na estrada com Elias. Encontrei esse flamboyant vermelho na BR 135, próximo da Fazenda São José. Olhei essa árvore e um belo arquivo da minha memória foi ativado. Certa vez resolvi ir de Ribeirão Preto a Salvador de ônibus. Verifiquei o trajeto em um mapa e tudo pareceu perto e sem demora. Concluí: uma viagem fácil e rápida. A minha mente ficou povoada de curiosidades sobre as paisagens do sul da Bahia e do interior de Minas. Ainda mais que estava de posse de uma câmera fotográfica monoreflex, SLR 35 mm da marca Zenit.  Pois bem... eis que a hora da viagem chegou e na plataforma estaciona um ônibus nada igual ao que aparecia na propaganda da empresa. Logo em seguida vi que as pilhas de caixas e malas que estavam na plataforma, sem nenhuma restrição, foram lançadas nos bagageiros do ônibus. Só o ato de carregar os bagageiros garantiu, logo no início, um atraso. 
Quinze minutos depois e as malas, pacotes etc. ainda não estavam todos acomodados no bagageiros.  Uma multidão de cidadãos na porta do ônibus, todas ávidas para pegar o seu lugar. Os passageiros começam a entrar no ônibus... grudados aos seus corpos mais sacolas, bolsas, rádio-cassete-cd e um imponente  poodle branca, um contraste diante das faces queimadas de sol. Fiquei hesitando, pensando em desistir da viagem. Respirei e comecei a pensar no lindo mar de Salvador, na enseada perto do Farol da Barra e em Amaralina, Mercado Modelo, Pelourinho e os shoppings, os shoppings sim. 
Saí procurando a cadeira trinta e alguma coisa... O bagageiro superior estava abarrotado de coisa, uma sacola laranja de napa se destacava... Sentei do lado da janela... Do meu lado uma senhora com seus mais de 60 anos de guerra, cabelos já brancos. A vizinhança estava composta pela dona do poodle, ao lado, na frente o dono do rádio+cassete+cd, na poltrona atrás tinha uma senhora deitada ocupando as duas poltronas. 
Motorista deu partida e teve início a odisseia desse negro-índio-cristão novo-pardo. Som rolando, poodle agitado e um turbilhão de conversas. 
Tempos depois a senhora que estava do meu lado desceu em uma cidadezinha, em Minas, fiquei só e de posse das duas poltronas. Deitei, tentando dormi, mas não consegui. Fiquei lá quieto ouvindo as histórias. A viagem foi isso as pessoas iam relatando suas vidas uns para os outros: os empregos, as dificuldades, os lances de sorte etc. Um senhor, que estava sentado na parte dianteira do ônibus passou periodicamente a ir conversar com a dona do poodle e assim foi se entrosando com todos, contava piada, cantava. No início da noite ele já era conhecido de todos. O som rolando axé ou algo assim. na madrugada a discotecagem passou ao comando desse senhor contador de piadas. Cada canção mais melancólica do que a outra... Abri meu kit-sobrevivência: bolachas recheadas e maças e comecei a enganar o estômago. Já bem tarde ... o ônibus começou a cair em buracos, trepidação infernal. Começa uma chuva de coisas sobre a minha cabeça: saboneteira, um vidro de desodorante de Rastro, uma escova de cabelo.. Por fim caiu a sacola laranja de napa. 
Cansaço, desconforto e sono. Cochilava e despertava sucessivas vezes. Algumas pessoas resolveram fumar dentro do banheiro, o odor do cigarro tomou conta do ônibus. Abri a janela e fiquei olhando para as estrelas. O rádio do cara continuava ligado. Terminei mais um pacote de bolacha. Foi amanhecendo e  pude ver o sertão... a imensa caatinga, as elevações do terreno, as casas. O ônibus foi, aos poucos, esvaziando. Cada um que descia deixa sua saudação de boa sorte. Pequeno vilarejos, casinhas solitárias em meio à imensidão de galhos secos e pedras. 
O céu azul, bem azul, dia claro...o ônibus avançava rumo a Salvador, que para mim já era também salvação. Peguei o livro "O que é sociologia" de Norbert Elias e comecei a ler calmamente... Fiquei refletindo sobre o conceito de configuração. Em um instante olhei para o lado e vi bem ao longe uma casinha branca com um flamboyant vermelho florido ao lado... O Branco da casa e o vermelho das flores destoavam excessivamente do cenário. Aquele lugar estava resumido a galhos secos retorcidos, sem nenhum verde, nenhuma cor... O ônibus foi descendo a ladeira e fui perdendo de vista a casa e o flamboyant. A partir daí batizei a viagem de Na estrada com Elias. 
Comi a última maça e pensei em jejuar até Salvador. A ansiedade já tão grande que pensei que Vitória da Conquista já era um bairro de Salvador. Não era um bairro da capital baiana e para piorar Salvador ainda estava longe. 
O poodle ficou em algum lugar entre Vitória da Conquista e Feira de Santana, ficou em um local onde a solidão e o abandono possuem um endereço aparentemente fixo. Imaginei aquele poodle na caatinga, descendo do altar dos braços de sua dona e ficando face-a-face com um cacto. Sua dona deve ter entrado nas histórias locais com a hipertrofia das impressões sobre sua conquista urbana: o poodle. Muito provavelmente foi pioneira local na tentativa de transplantar um status aparente a partir de poodle.
Desta maneira vivi quase mil e novecentos quilômetros dentro de um ônibus. Viagem que se prolongou por trinta horas, seis horas a mais do que eu esperava. 
 "Por configuração entendemos o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores - não só pelos seus intelectos mas pelo que eles são no seu todo, a totalidade das suas ações nas relações que sustentam uns com os outros. Podemos ver que esta configuração forma um entrançado flexível de tensões. A interdependência de aliados ou de adversários." (N. Elias)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AÇÃO DIRETA E LEGÍTIMA DEFESA PACÍFICA

Green Politics must become the Politics of the Regions – all the Regions, from the celestial to the subterranean. Let the next Gathering of the Greens conduct all its business in poetry. This will foreshadow the day when America will be Green. Even better, the day when for a small fee we do an international name exchange and America becomes a large frozen island, while Green Land extends from sea to shining sea. The day when Green Politics rules. The day when the President pantomimes the Inaugural Address and sings the State of the Union in falsetto. The day when the Supreme Court sits naked in powdered wigs and hands down rulings in Pig Latin. The day when the Congress throws a multi-party and dances all the Laws out of existence.(Trecho do The Surre(gion)alist Manifesto , John P. Clark)
É preciso ultrapassar as formas mórbidas e dilacerantes da política atual. Não adianta só as contestações, enquanto persistir seus mecanismos genocidas e desumanizantes é necessário agir diretamente s…

Governo de Flávio Dino rumo ao último biênio

Tive uma educação libertária, isso já é suficiente para não adorar ídolos, heróis e nem acreditar na doutrina da "vanguarda revolucionária", o que entraria em conflito direto com as percepções e entendimentos que tenho sobre o que é História. Logo não tenho vocação a discípulo, a servo, a escravo e nem a puxa-saco ou lacaio. Minha torcida é cívica e republicana pelo governo, pela governabilidade e governança que, cumprindo os parâmetros de governo da lei, responda às necessidades do povo e aos negócios públicos com responsabilidade, competência e publicidade.
Em democracia a crítica e a contestação são direitos do cidadãos não é uma dádiva do governante. A contestação e o reclame não precisa de um aceite prévio ou concessão do ocupante do poder. Assim, a esfera da democracia guarda tensões e um certo nível de dissenso. A discordância não precisa estar fundamentada ela é. Isso difere de acusações em atos e procedimentos que configurem como crimes. A crítica, longe de ser uma …

Ação Penal 470 - Filhos do Brasil

                                         Por  Washington Ribeiro Viégas Netto*

"Quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio. Um dia, um feio inventou a moda, e toda a roda amou o feio". Zeca Baleiro.

Tenho acompanhado com especial atenção o julgamento do mensalão pela nossa mais alta corte de justiça, o STF. Penso que o resultado ali proclamado nos dará uma medida atual do quanto já nos distanciamos da pecha “república de bananas”; forma de governo que ainda persiste em países destas latitudes. No decorrer de todos esses anos em que tramita o processo, tem sido uma rara oportunidade de o Brasil reafirmar a força e solidez de suas instituições, soberanamente constituídas, quando confrontadas com um, ao que tudo parece, projeto de poder que, por meio de um conhecido método de aparelhamento estatal, tentou um processo de clivagem dessas mesmas instituições. Porém, antes mesmo de iniciado o julgamento, acredito que o saldo é favorável ao Brasil. O Supremo é composto d…