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A miopia dos maranhenses e os óculos da Globo


A miséria no Maranhão é tão ampla e tão antiga que os maranhenses perderam a capacidade de ver com seus próprios olhos as reais implicações dessa situação. Não conseguem ver nem se indignar com tamanha desigualdade social. Incapazes de reagir à violência e ao constrangimento que isso significa para a vida cidadã. Para os maranhenses isso tudo é normal. Impera uma forma naturalizada de conceber a miséria. Não são poucos os que pensam, percebem e definem essa desigualdade como patrimônio cultural - eles gostam de viver assim, dizem eles.  

A Globo tem tido o mérito, com sua capacidade de convencimento e de estabelecer a versão "verdadeira, de ser uma espécie de óculos para os maranhenses. A Globo disse então passa a ser real. As pessoas comentam e mostram-se admiradas. Tudo já estava posto bem perto dos olhos. Tudo que a Globo disse, resumidamente, já foi dito e forma aprofundada por inúmeros pesquisadores locais. Diversas vezes postei sobre essa questão. Tantos outros pesquisadores já fizeram o mesmo. Sobre esse tema já concedi três entrevistas à Rede Brasil, sendo que última foi em rede nacional. Qual a repercussão local? Nenhuma.  

Marajá do Sena como a capital da miséria não é novidade para um estado campeão em miséria. Mas isso não é só uma questão quantitativa e econômica. Quem ver só assim continua tendo uma visão superficial do problema. O Maranhão tem um ethos profundo de extrema desigualdade social: as pessoas que têm não se contentam em ter, precisam o tempo todo dizer que o outro não tem nada. 

Tem uma responsabilidade política-governamental vinculada à persistência dessa miséria, mas há, do outro lado, um modo tradicional (de tipo reacionário) de culto ao distanciamento social, e que não deve ser atribuído como culpa também quem está no poder político. O que dizer de um pai que, em uma reunião escolar de pais, propõe que a escola aumente a mensalidade para evitar a entrada de "gentinha" ? O que dizer dos que reclamam de colegas que são "bolsistas"? A culpa é só dos governantes? Não. Eles são pessoas dessa mesma sociedade que alimenta o distanciamento social extremo como forma de projeção social. Basta observa o alto investimento em status aparente. Ter carro com mais de 03 anos em São Luís é uma heresia. 

O investigador do IPEA falou na Globo agora todos os vão reproduzir o dito. Eis um outro detalhe. Nesse Maranhão profundo,  persiste uma vaidade suicida no meio acadêmico, onde cada intelectual se posta como um supremo gênio e são incapazes de reconhecer os méritos do colega, em geral, boicotam para que o outro não possa parecer que tenha mais brilho do que ele. Uma vaidade obscura, onde todos acabam sendo "mundialmente conhecidos" apenas na sua sala ou nesse inusitados departamentos. Essa operação de ninguém poder ter seu trabalho reconhecido, para que o nivelamento fique sempre no rodapé, tudo que vem de fora é maior, é melhor e grandioso. É preciso algo de fora aparecer para que se possa ver e validar. 

A questão dessa miséria, já escrevi, tem a ver também com a falta de financiamento específicos para cada arranjo produtivo. Não basta só ensinar a cozinhar, não será suficiente, pois quem está na miséria mesmo não monta negócio sem incentivo. Cadê o dinheiro para comprar o fogão, o gás, as panelas, a matéria prima? É preciso desenvolver também capacidade empreendedora. No mais, falta em nós mais humildade e solidariedade no que tange o reconhecimento do outro de ter direito a vida digna. Humilhar pobre não é luxo, é extrema perversidade. 


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