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Bumba-meu-boi e o óbvio tantas vezes dito

Francisco Araujo São Luís-MA Brasil
Foto: Francisco Araujo.
Caboclo de pena do Bumba Meu Boi da Maioba. 
Os arraiais estão perdendo o formato de terreiro e assumindo as características de arenas de show. Hoje já tem palco para o bumba meu boi dançar e, sobre o batalhão, jogos de luze. Cada grupo é apresentado por um mestre de cerimônia (um locutor do arraial que muitas vezes fala um monte de coisas desnecessãrias e quer para si a atenção do público) . Mudança! A mudança é um fenômeno presente em qualquer arranjo socialmente produzido. O problema maior é o sentido das mudanças. A tradição é resistir aos eventos modificadores ao longo do tempo, não exclui e nem elimina modificações, mas transaciona as alterações para manter o que há de mais essencial. 

Perdurou por muito tempo uma concepção de tradicional na forma mumificada, congelada. Era uma herança "teórica" dos ensaístas da cultura que pensavam o folclore como algo estático, atividade extinta ou do passado, um fazer socialmente morto. Hoje sabemos que folclore é antes de tudo aquilo que é de domínio de todos e pertence a um todo - uma configuração social. O folclore é socialmente vivo, tem a ver com o presente. 

Volto ao sentido das mudanças. O palco alto torna mais visível a brincadeira ao longe, mas não precisa ser tão alto. Cabe também perguntar: todo o grupo precisa ficar sobre o palco?, não é possível manter o palco e o formato do terreiro? A iluminação ampliada e melhor distribuída faz ressaltar as cores e o brilho, mas jogo de luz à maneira de show de banda de rock não ficou bom, a constante mudança de luz, o apaga e acende, cria dificuldade de localização e distância para os brincantes, que não ensaiam sobre palco. 

Presenciei, nessa última quarta-feira, um fato inédito: um brincante do Boi de Morros se machucou. Por quê? Porque caiu do palco, a altura do palco tornou o tombo mais grave. A iluminação não pode ser de improviso e tem que ser pensada a segurança dos brincantes. Nesse particular, segurança, a contenção feita, envolta do palco, são cordas presas a estacas de pinho. Madeira frágil e que produz muita farpa, isto é, totalmente inadequada. 

O óbvio tantas vezes dito: precisamos estender mais esse período de festejo, a fim de aproveitar mais o período de férias escolares. Os arraiais hoje movem grande volume de recursos e não podem ser tão pouco aproveitados. Imaginem se é lógico montar e desmontar toda essa estrutura em tão pouco tempo. Esse  encerramento logo no dia 30 de junho é contraprodutivo. 

O prolongamento dos festejos de São João até a metade do mês de julho é crucial para alavancar o turismo e para viabilizar maior retorno financeiro para os diversos grupos e brincadeiras tradicionais. Esses grupos precisam ter sustentabilidade financeira, gerar renda e se manter tanto pelo mercado interno como externo. Em Salvador o carnaval-baiano é o ano todo, o que tem possibilitado as bandas e os blocos carnavalescos obterem maior retorno do investimento feito no período de Carnaval propriamente dito. Precisamos pensar em saber oferecer MAIS o que temos de MELHOR: Bum-meu-boi, tambor de crioula e cacuriá. 

Crianças e jovens entrando de férias, turistas chegando, mas os arraiais vão fechar. 
Em qual parte do mundo o setor turístico desperdiçaria uma oportunidade como essa? No Maranhão. Só aqui mesmo. 

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