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SARNEY E OS TEÓRICOS DO ÓBITO



Há dez anos ouço que “quando Sarney morrer acaba tudo”. O que acaba? O que é esse tudo? É um discurso forte e soa como verdade em diversos círculos tomados pela passionalidade e sentimentos afins. É nitidamente uma fala naturalizada, ideologizada, mas também ingênua.

Sarney enquanto indivíduo/sujeito deixou, há tempos, de ser observado pelas óticas: crítica, analítica, reflexiva, empírica, social, histórica e racional. O sujeito foi deixado em um canto e o mito passou a reinar. A força do mito é tamanha que os seus opositores, inimigos etc. falam do mito como se estivessem falando do sujeito. O pior de tudo isso é que nem se dão conta do mito, o que reforça ainda mais a ilusão de estarem tratando da realidade empírica do indivíduo/sujeito histórico Sarney.

O mito Sarney não está sob o controle do José Sarney. O mito circula, ganha forma e se traveste por inúmeras narrativas, formas de adoração ou repulsa. Mito-herói, mito-inteligência, mito-astúcia, mito-feitiçaria, mito-artimanha, mito-gênio, mito-demônio etc. O mito tem sido, mais que o José Sarney, “analisado”, criticado e combatido. Pergunta: um mito pode ser vencido?

A morte física do senador não desarmará a força do mito, tendo em vista que seus principais detratores, aqueles que recorrem aos xingamentos, insultos e grosserias para atestar sua pureza “política”, sua idoneidade moral, continuarão alimentando o mito. Como? Hiper-dimensionando o sujeito para produzir o supra-humano do mito. 

O Maranhão produziu um tipo singular de oposição: a oposição-fã. Para essa oposição Sarney é tudo e o que ele faz (suposto ou real) produz um efeito festivo nela própria. Quando o José Sarney falecer, muitos do anti-sarneísmo não terão como prever o tempo. Pois até as previsões meteorológicas deles dependem de Sarney. Creem eles. 

O mito Sarney ordena a vida da maioria dessas pessoas da oposição, ele também serve para racionalizar, justificar e legitimar a incompetência e a derrota no embate com José Sarney. Quando o senador José Sarney falecer a oposição-fã ficará órfã e buscará, muito provavelmente, reordenar e justificar sua existência agarrada ao discurso da herança deixa pelo sarneísmo. É muito provável que a ideologia da herança totalize as falas em um futuro próximo. Como eles poderão ser alguma coisa sem Sarney? Difícil. A salvação vai ser se agarrar ao discurso da herança maldita

Por outro lado, esse universo de detratores não é composto só por desavisados, ignorantes e “inocentes-úteis”, não mesmo. Existem os espertos, que se beneficiam desse embate nominado de anti-Sarney. Ficam agindo de forma planejada e calculada para manter o mercado da oposição a Sarney vivo e em alta. Isso rende e é lucrativo para eles. Mas só os investidores que monopolizam essas ações têm ganho real. São os expertos mega-especuladores do mercado anti-sarneísta. Vivem disso, e só. O que é o anti além da recusa ou da simples negação? Eis o perigo. Pois a face da oposição dormita na penumbra, ninguém ver (igualmente à cabeça de bacalhau). Preocupa não só seu corpo heterogêneo, mas as formas de ligação e as argamassas arranjadas para os unir. 

Não queremos criar um excludente de responsabilidade para José Sarney, enquanto homem de negócio da política, mas alertar para o perigo de se apostar também em uma oposição em forma de mito. Vide o “governo” da “libertação” e vergonhosa “oposição” de viés castelista.  

O anti faz parte do mito Sarney. Para os dialéticos o anti equivaleria a um dos elementos da unidade dos contrários. Só que não participamos da ideia de dialética positiva, onde a superação é sempre um salto de qualidade, o próximo momento pode ou não acontecer e o nível de qualidade é uma incógnita. 

O que dizem os teóricos do óbito? Dizem: “quando o velho morrer isso tudo acaba”. Ora, assim o sarneísmo fica restrito a José Sarney. É uma verdade forjada sobre o que o mito super-dimensiona, não sobre o que o José Sarney faz. O ser onipotente e capaz de realizar tudo. Isso é qualquer coisa, menos um a visão realista. Se for sonho de esperança, já começa fadado a se transformar em pesadelo. Isso só pode ser uma ideologia consoladora para acalentar o fracasso de não ter vencido o oponente pelo voto. Auto-consolo. 

José Sarney reúne inúmeros fracassos e alguns méritos. No entanto, dentre os feitos atribuídos a Sarney (mito), destaca-se a longevidade no poder, mas isso não é fruto exclusivo do brilhantismo de José Sarney, também é resultado direto da debilidade das oposições que foram aparecendo ao longo desses últimos 50 anos. A morte de José Sarney vai fazer aparecer instantaneamente políticos mais comprometidos com coisa pública,  justiça social etc.? Como? O mundo da política as coisas não se efetivam na forma de magia. 

José Sarney nunca enfrentou sistematicamente uma oposição em bloco, continuamente coesa. O que sempre enfrentou foram ego-feridos e oposições difusas. Os que estiveram à frente ou em situação de destaque nessas oposições foram, em sua maioria, egos contrariados em suas vaidades, mas não representantes de um projeto político diferenciado.

Os sujeitos que historicamente poderiam ter constituído uma Oposição Política, pautada em princípios democráticos, republicanos e com uma visão de mundo diferenciada, infelizmente nunca chegaram a ganharam espaço suficiente, nunca estiveram em posição mais destaca, como figura centrais. Muitos foram eliminados pelos próprios "pares" da oposição. Grandes nomes, com boa reputação empreenderam, na maior parte do tempo, esforços isolados e com baixo rendimento. O jogo interno da oposição ou das oposições no Maranhão ainda é de tipo soma zero.

Ao mito da onipotência precisa ser contraposto o seguinte fato: a oposição nunca teve uma verdadeira unidade. O que foi se efetivando com o passar dos anos foi a manifestação de inúmeras posições contrárias ao Sarney, mas pequenas. Agindo por motivações altamente diferenciadas e divergentes, na maioria do tempo, entre si. Os resultados dessas formas de atuações foram fracos e sem grande alcance. Soma-se a esse fato os sucessivos atos de incompetência, personalismo e vaidade, que reforçaram o caráter fragmentário dessas oposições. Não esqueçamos que todos os líderes dessa oposição, salvo honrosas exceções, acabaram passando “pela mão de Sarney”. Isto é, em algum momento da história acabaram se aliando a José Sarney. Essa lista dos que acabaram se rendendo ou se encantando é grande, tem tanto gente do alto-“clero” como do baixo-“clero” das oposições.

Mérito, não mito, é o fato de ser o político que mais tempo passou no topo do poder nacional durante toda a história republicana. Sarney foi Presidente da República e a maior parte do tempo, desde a abertura política, ocupou postos na linha da sucessão presidencial. Tendo como complemento o fato de ter se colocado à frente de todos os mandões do Brasil, aproveitando-se da sinergia existente entre eles. Soube superar a vitória de Cafeteira ao governo do Maranhão, o fim da Ditadura Militar, os escândalos: da Lunus, dos atos secretos e do processo contra Fernando Sarney, também soube reagir à derrota eleitoral para Jackson/José Reinaldo. Sejam quais foram os fundamentos dessa sobrevivência, mas sobreviveu. Em termos de poder é mérito. Estamos fazendo um exercício de constatação e não juízo ou julgamento moral. Portanto, não há como negar esses feitos. 

Enquanto Lula é o melhor desempenho no quesito Chegada e Conquista do posto de Poder, Sarney é a melhor performance de Permanência no Poder. A chegada e a conquista do poder por José Sarney contou com mãos fortes à frente: Vitorino Freire, em uma espécie de preliminar e depois, de forma mais decisiva, Marechal Castelo Branco. Lula teve mais trabalho e enfrentou mais obstáculos para poder chegar. Lula teve o mérito de perceber, junto com a oportunidade, a distância que o posto do Poder estava dele e suas condições. Era muito longe, mas habilmente pegou carona nas costas da intelectualidade urbana dita de esquerda. Viu que aquela gente tinha a cabeça feita com o messianismo proletário, logo se investiu da condição de proletário libertador idealizados pelos homens letrados. Foi paciente para aguentar a demora da viagem e o desconforto do animal que montava. Quando chegou mais perto, do posto do Poder, desmontou e pragmaticamente se valeu de todos os veículos que davam acesso ao posto máximo. Logo foi ter um conversa com quem mais entendia de permanecer no poder: José Sarney, dessa parceria e irmandade teve início o sarnepetismo.

José Sarney tem como marca real negativa, dentre tantas, como profissional da política, a situação educacional do Maranhão. Foi onde ele mais falhou. Basta ver os índices de crescimento econômico, posição do PIB do estado e comparar à relação entre renda per capita e nível educacional da população. Se alguém tiver dados que provem o contrário, favor apresentar. A situação é gritante, particularmente por ter implicações conjuntas que envolvem educação, formação, escolaridade e capacitação. O mito entorpece as oposições e aprisiona seus discursos na dimensão da miséria material, como se a miséria pudesse existir sozinha e ser reproduzida isoladamente.

Voltando aos teóricos do óbito – em termos de ingenuidade - acreditam que essa teia enorme de interesses e cumplicidades, que dá existência ao sarneísmo, vai se auto-extinguir instantaneamente. Como se os sarneístas não soubessem que, permanecendo unidos, mesmo sem a presença física de José Sarney, continuarão fortes e influentes. É o grupo que mais tempo está articulado internamente e com maior experiência de exercício de poder.  Reúne a maioria dos grandes ricos. Vão lutar até o último recurso pela manutenção dos espaços ocupados ao longo dessas últimas quatro décadas. Será que esses opositores acreditam que a morte de José Sarney vai ser a “Queda da Bastilha”?

A teoria do óbito - enquanto pesadelo – os partidários dessa tese não percebem que a morte de José Sarney não é garantia de produção automática de políticos eticamente e moralmente melhores. Os políticos que temos hoje não são frutos de José Sarney, mas da nossa própria sociedade. Basta olhar algumas hordas que existem no interior do Poder Legislativo: Assembleia Legislativa e Câmaras Municipais. José Sarney tem o mérito de manter sob o cabresto inúmeros tipos venais e facínoras que habitam nesses espaços. A que preço e em benefício de quem são questões à parte.

Quem já viu o futuro? Quem pode ter a certeza que a morte de um só homem possibilitará a mudança para melhor de uma sociedade inteira?   A morte dele poderá ser sucedida de um fortalecimento do poder dessa gente venal, produzindo um enorme pesadelo para todos. É uma possibilidade. Não devemos ser otimistas descuidados.

Qualquer pretendente ao poder no estado do Maranhão tem que agir para manter essa laia de perversos nos parâmetros mínimos de civilidade. O Maranhão está diante de uma incógnita perturbadora e não de uma certeza tranquilizadora. Mesmo escondida na penumbra da “política”... é possível ouvir os uivos alucinados de uma alcateia faminta, que espreita sem pudores o nosso futuro...



Comentários

  1. Belíssima análise, Francisco Araujo. Há alguns dias, percebi fato de teor semelhante com a presidente Dilma, a qual está sendo responsabilizada por todos os problemas brasileiros, sendo a sua saída, a solução desses problemas, denotando assim uma visão fantasiosa. Com Sarney, porém, ainda não havia "me tocado" que ocorre algo semelhante. Com o seu texto, pude observar que o pensamento de manada, seguindo e reproduzindo um pensamento disseminado pela grande mídia, permanece vivo e, no exemplo do Sarney, somos levados a crer nos teóricos do óbito. Embora, não seja eu um eleitor de nenhum dos dois, tanto no caso do Sarney como no da Dilma, a morte/saída não é a solução dada a base por envolvida por trás.

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