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O INFINITO REDUTO DA PERVERSIDADE


O mapa do Inferno de Dante.................... e um mapa parecido


As sociedades modernas cresceram perseguindo os ideais de controle e previsibilidade. Particularmente isso foi ocorrendo através das crenças. Crença na força da Razão e na Ciência, além da defesa universalizada da igualde perante a Lei. Quanto a esses ideais e crenças são inúmeros os insucessos registrados e apontáveis em diversas áreas, mas também é possível destacar e sinalizar  os êxitos obtidos, principalmente nos espaços que serviram de geradores do Mundo Moderno. 
Por mais plausível e pertinente que seja a crítica, não há como negar conquistas e avanços produzidos com a Modernidade. Para tal, basta tomar como referência as mudanças ocorridas em uma mesma região de igual base cultural. Isso possibilita ver sem negligenciar as particularidades culturais e históricas em que estão envolvidos os países e nações. Comprovado é o fato que países e diversas regiões atingiram determinados patamares de sociabilidades e padrões de vida qualitativamente diferenciados aos que  eles já tinham experimentados em momentos anteriores de suas histórias. Por exemplo, alfabetização da grande maioria da população. 
Portanto, não significou melhoria só pelo montante da acumulação de capital, nem por montante de riqueza obtida por alguns desses países, mas também por fazer vigorar crenças em valores significativos para a Humanidade, por exemplo, os Direitos Humanos, a participação cada vez maior dos indivíduos nos negócios públicos etc.

Para o novo mundo e demais regiões, a história foi diferente e nem tudo se efetivou completamente, diversos processos de transplantes não foram consolidados no mesmo patamar e grande parte desses modelos institucionais sofreram inúmeras modificações sob a égide das especificidades culturais. Alguns desses modelos nem foram cogitados a terem existência.
No novo mundo, quase como uma regra, dentro dos diversos países e regiões formaram-se ilhas ou pequenos arquipélagos com características desse processo civilizatório. Para alguns teóricos, só onde interessava à reprodução ampliada do capitalismo.

No Brasil, as diferenças regionais tomaram formas nítidas e entre os estados-membros também foram constituídas as ilhas de prosperidade, civilidade, regulamentação e previsibilidade. O maior montante desse sucesso coube à região centro-sul.

Passaram-se os anos e alguns estados nordestinos consolidaram algumas cidades e localidades com um mínimo de acúmulo de qualidade de vida, de serviços e dinamismo econômico, dinâmica de mercado relativamente autônoma do Estado.

Ora, vive-se globalmente um surto de convulsões sobre o modelo econômico e social que atingem marcos de conquistas anteriores, o que para muitos cria uma era de incertezas, para tantos outros seria uma nova etapa histórica e, por falta de outra designação, convencionaram chamar de pós-modernidade, sendo que há inúmeras visões sobre o que é a pós-modernidade e nem todos são congruentes. Para resumir: alguns pilares da modernidade deram sinais de falência ou de impossibilidade histórica de concretização universal, ou novos elementos estariam sublevando diversos espaços desse modelo civilizatório e começando a forjar uma nova realidade.  

Nesse debate surge a ideia de uma sociedade de risco. Não restringindo só ao olhar de Urick Beck, pode-se entender que ela configura o descaminho da previsibilidade e controle. Mais ainda, configura os horrores contemporâneos dos grandes centros e seus valores. Essas dificuldades, ao que parece, são mais exigências de respostas à novas necessidades do que esgotamento de tudo que existente. Parece muito mais deslocamento de categorias em termos de maior ou menor centralidade. Ou também, nos casos pontualmente extremos, a perda de centralidade e constituição de uma existência em forma de rede ou teia, onde as interdependências e simultaneidades tornaram-se um imperativo. O visível nisso tudo é que algumas conquistas e marcos civilizatórios são visivelmente ainda valorados e existem consensos para mantê-los, tanto em escala local como em escala regional e global. Isto é, algumas necessidades ainda dependem deles para serem atendidas, mesmo de forma conturbada e precária.  

Daí a possibilidade de se dizer que a situação atual tem como característica o impasse que se efetiva entre o constituído que não responde mais à novas exigências e as novas respostas que ainda não ganharam formas efetivas. O conservadorismo está presente em todos os arranjos sociais, como tradicionalismo ou reacionarismo, e esse momento histórico social não fugiu ainda dessa tendência conservadora. A crise de regulação e previsibilidade  não é um abandono social do ideal de controle e previsão. O reclame é por novas formas de realiza-los. Pois todas as formas de existência social se mostraram devedoras de algum tipo de controle e previsão. Isso para ter em resposta certo graus de segurança e confiabilidade, tornando mais viável planejar.

Não há nada então que indique que o aparato de regulação do Direito vá desaparecer e que se tornou obsoleto para o mundo, no seu todo. Tão pouco as sociedades pretendem se constituir totalmente desgarradas de tipos de regulações formais, fixas. Por outro lado nada evidencia o fim do mercado, ou relações econômicas de tipo capitalista e lucrativas. O mercado sempre esteve presente nas sociedades, em menor ou maior escala, de forma mais especializada ou mais consorciada a outros elementos estruturantes da vida, a exemplo da religião, da política etc. O salário era uma relação já existente anterior ao capitalismo e pode sobreviver em outros arranjos econômicos e de mercados. O que tem tribulações atualmente são os padrões econômicos e de mercados reproduzidos nos últimos 300 anos. Fica cada vez mais tensa e instável sua reprodução, particularmente, frente à ausência de mecanismos novos em consonância com a dinâmica atual. Em visão gramsciana: uma crise.

Pois bem, sabe-se que toda autonomia institucional é sempre relativa e que os elementos componentes de uma dada realidade estão em constante interação e propensão modificativa. Por ou lado, a realidade é constituída por inúmeros campos de valores e prioridades que são sempre assimétricos, por onde emergem formas de manifestações de poder. 

Após refletir sobre o mundo, as Américas, o Brasil, a região Nordeste... é pertinente indagar sobre o Maranhão: qual a real condição e configuração desse estado federativo do Brasil? Primeira resposta tem que ser para afastar equívocos. O Maranhão não está isolado, mas é um caso atípico no Brasil em diversos aspectos (macros e setoriais). Particularmente no que tange formas de condição a-sistêmica.

O Maranhão sofrerá os efeitos de qualquer transformação que venha a ocorrer no mundo, elas também repercutirão aqui, coisa que parece bem óbvia. No Maranhão soarão todas as crises do ambiente em que está inserido, bem mais óbvio. O que acontecer no mundo e afetar diretamente o Brasil atingirá o Maranhão, redundância da redundância. Mas o Maranhão, em alguns aspectos relevantes, só sentirá os efeitos de forma pontual e contida, com variações bem específicas. Particularmente por não ser um estado crucial para manutenção do patamar econômico do país,  pesará menos nas retrações econômicas. Aqui não é uma espaço de produção de grandes lucros do capital produtivo, não abriga os setores mais dinâmicos e lucrativos da economia nacional. Os danos maiores ocorrerão em consequência de sua dependência dos repasses da União. Basta destacar que mais da metade do dinheiro que circula no Maranhão é repasse. Isto é, esse estado é praticamente bancado pela União. 

Por outro lado, em um cenário de crise macro, o Maranhão pode ficar sob efeitos muito contidos. Porque o capital produtivo e as cadeias de grande negócios só atingem uma parcela minoritária da sociedade maranhense. Isto porque essa dinâmica econômica capitalista que envolve recursos e produção consegue se realizar sem a participação direta da grande massa da população maranhense. Isto é, essa massa-força-de-trabalho já não conta mesmo com nenhum ganho desses setores da economia, a mão de obra local não é absorvida significativamente por esses empreendimentos. Mesmo levando em consideração os tais empregos indiretos - noção bastante problemática, fenômeno de difícil mensuração e de forte ideologização - certamente eles não existem baseados somente em uma fonte provedora ou associados diretamente aos grandes empreendimentos. 

Cabe ressaltar que até o programa de transferência direta de renda do governo federal  (Bolsa Família) acontece de forma distorcida, pois tem sempre desvios de sua finalidade. Isto é, vem sendo empregado ineficazmente visando, em parte, os interesses particulares de políticos e grupos de poder (o uso eleitoral e a satisfação de parentelas e clientelas) do que promover o bem comum e desenvolvimento social. Sendo assim, se ocorrer retração dos programas de redistribuição de renda, parte significativa dos mais pobres do Maranhão não será afetado diretamente. Porque, na prática, eles já não estão recebendo benefício algum, não estão inclusos em tais mecanismos de proteção social. As pessoas que compõem esse segmento social menos favorecido já sobrevivem exclusivamente dos seus esforços e, às vezes, de alguma caridade desinteressada. Eles já sobrevivem sem tais benefícios, eles formam um segmento alter-social existente em todas as regiões do Maranhão. Eles nunca conseguem ganhar moradia, entrar nos programas sociais de erradicação da pobreza etc. Encontram sempre barreiras políticas e sociais que os impedem do amparo na forma de política pública. São invisíveis para os olhos do poder público e da sociedade envolvente. E se olharmos para os que realmente precisam do programa Bolsa Família e que conseguiram entrar no programa, veremos que esse recurso recebido, por si, é insuficiente para os fazer gozar de um patamar social significativamente diferente da posição inicial, pois o recurso recebido serve basicamente para ajudar a garantir um mínimo calórico (alimentar). Isto é, seu estado de necessidade ainda é grande e eles convivem, mesmo no programa, com inúmeras privações.   

Essa ineficácia de atender os mais pobres, em parte, é gerada por uma sistemática e eficiente pilhagem do Estado, que faz uma parcela significativa da população ser alijada de qualquer benefício social para que os recursos sejam convertidos em riquezas pessoais privadas. Isso tem contribuído para a estruturação de um Estado não-público e sob constante práticas patrimonialistas e clientelistas. O resultado concreto e imediato disso é que uma parte da população fica diretamente usufruindo de vantajosos favores estatais e, a outra parcela, a maioria, fica sobrevivendo totalmente descoberta da proteção desse Estado, em uma condição outra de "cidadania" (sub-cidadania), sem qualquer efetividade de garantias e direitos, coisas que acabam não passando de uma formalidade ficcional na vida dessas pessoas. 


Resumindo, uma crise que afete a capacidade redistributiva e de proteção social do Estado brasileiro terá maiores consequências no Maranhão pela quantidade de famílias dependentes desses repasses. Mas, terá duas singularidades: Primeira, será onde os ricos sofrerão maior impacto, pois eles realizam esse status de riqueza através da pilhagem direta do Estado, particularmente desviando recursos repassados ou tomando o funcionamento da máquina administrativa em benefício próprio, não são riquezas fruto do capital produtivo. Não fazem parte do capital produtivo real, mas parasitam as coisas estatais que deveriam ser públicas  e fazem isso através de empresas de fachada, onde lavam o dinheiro ilícito. Segundo, a quantidade de indivíduos com baixa renda e na condição de pobreza acentuada é suficiente para que a retração ou definhamento dessa distribuição de renda pareça não tão impactante e que tudo continue igual, devido a tamanha degradação e dificuldades vividas diariamente por essas pessoas. Isto é, situação já vivenciada já é crítica, eles não saíram do lugar de pobreza que ocupam. Os com acesso ao bolsa família obtiveram mais consumo, reduziram o estado de fome. Os que não tiveram acesso ao programa não serão de imediato afetado, porque já sobrevivem sem esse auxílio. Esse montante da população não sofrerá? Sofrerá, com certeza. Porém, essa parcela já vem sobrevivendo sob sacrifícios há tempos, será o aprofundamento de uma situação, mas de uma situação de longa duração, de toda as suas histórias de vida. Não será perda do bom para o precário, mas a acentuação e aprofundamento de um estado grave de precariedade. A dor só será ampliada, mas sob dor já sobrevivem. Desda maneira, pode-se dizer que maior ausência da proteção do Estado, de garantias sociais e inexistência de oferta de serviços públicos não comporão nenhum fator surpresa ou de novidade na vida dessa parcela da população maranhense, pois já estão sobrevivendo na ausência de tais coisas. Será um plus na suas dificuldades diárias. Eles já formam um existência desprotegida, sem cidadania efetiva, em forma de uma alteridade ao formal. Eles literalmente são os outros.  

Esse contingente social já constituiu uma forma outra de sobrevivência, com mediações e com capitais sociais e simbólicos específicos, que independem do vínculo com o Estado e das garantias formais. Não são excluídos, pois estão em constantes relações com esse mundo dos privilegiados, mas sabem que para eles não existem garantias, nem direitos efetivos. São internamente os outros dentro dessa realidade. Constituíram formas efetivas de manutenção dos seus vínculos pessoais, das suas relações envolvendo coisas e partilhando um campo de socialidade que expressa formas não recepcionadas e sustentadas pelo Estado, mas que possuem consistência e eficácia entre eles e servem para a sustentação de suas vidas. Eles criaram um existir próprio.. quem sabe não estejam antecipando algo que ainda desconhecemos? 


A participação política dessas camadas sociais empobrecidas acaba sendo de extrema relatividade nas engrenagens dos poderes institucionalizados e diante das classes sociais mais ricas e à frente do poder político. Diante disso, esse contingente social acaba consolidando uma forma de alteridade em contraste com os estabelecidos, que gozam plenamente da proteção institucional e da ordem social vigente. Resumindo: Se a economia piorar globalmente, no Maranhão,  a pobreza e as privações de toda ordem só serão novidade para menos de 5% da população (soma da classe média-alta e classe realmente rica/proprietária). Dos 95% restante, 60% tem experiência em sobreviver de forma precária (sofrerão mais, sem dúvida), mas não é uma situação de todo estranha para a trajetória de vida deles. Portanto, só será mais um aditivo na dor. Mas, não será nenhuma novidade. Eles já conhecem isso e estão buscando a vida e dignidade por caminhos próprios há séculos. 

Por outro lado, a ausência de autossuficiência econômica e financeira do Estado, associada a inexistência de economia de mercado ampla, vigorosa e  de uma economia  mais autônoma do Estado, produziu no Maranhão um tipo de empresariado governamental, estatal que sobrevive sincronicamente gravitando em torno do Estado, totalmente dependente a ele. Isso tem tanto causas como consequências graves.  Primeiramente as causas: o processo de desenvolvimento e industrialização, que o Brasil adotou, desagregaram os modelos econômicos que predominavam e sustentavam a economia dos estados do Nordeste, além de lhes impor uma grande transferência de capitais. Esses arranjos foram totalmente incorporadas à economia nacional e a sua nova dinâmica, porém, em condições altamente desfavoráveis e na condição de periferia. Com esse modelo econômico de desenvolvimento extremamente desigual adotado, os estados do Centro-Sul ficaram economicamente e politicamente em uma situação de privilégio. 

Em decorrência desse processo acima referido, o período de 1930 até 1990 foi de extrema dificuldade para o Nordeste. Depois de 1990 tem início um processo de recuperação. Hoje alguns estados já apresentam uma economia mais forte e em uma dinâmica mais competitiva diante de outros centros, pois já gozam de maior amparo tecnológico na sua produção, chegando a ter alguns setores de ponta, como a produção de uvas e vinhos no vale do São Francisco, polo petroquímico de Camaçari (BA), a indústria de confecção de Pernambuco, indústria de automóvel na Bahia etc.

Consequências. Esse processo de recuperação não ocorreu de forma homogênea e nem com a mesma proporção no diversos estados dessa  da região Nordeste. Por quê? Porque neles houve processos políticos e de gestão díspares e atípicos.  Observa-se que onde essa mudança foi mais profunda lá teve renovação nos quadros políticos e uma relativa alternância no poder político. O Maranhão está na situação mais aguda de descompasso, tanto no ritmo de constituição de uma economia mais dinâmica, forte e atualizada como na renovação dos quadros políticos e na alternância do poder político. O Maranhão não sofreu nada de muito significativo nesses aspectos. O resultado é que o Maranhão lidera de forma negativa todos os indicadores sociais e econômicos. Sendo o estado da Federação com maior número de pobres e miseráveis. É suficiente ver o exorbitante número de famílias cadastradas no Programa Bolsa Família, que hoje é aproximado de 900 mil famílias.

O Maranhão foi a unidade federativa, da região Nordeste, incluindo os estados que estão em condições sociais e econômicas melhores, que mais teve oportunidades políticas favoráveis para melhorar suas condições sociais e econômicas no pós-1984. Começou esse período tendo como Presidente da República um maranhense, líder do grupo político que está controlando o estado desde 1966. Somam-se a isso, as diversas pastas de ministérios, postos de diretoria em empresas estatais e cargos de ministros que foram ocupados por maranhenses e todos pertencentes ao grupo político que governa o Maranhão. A presidência do Senado já foi ocupada quatro vezes pelo senador que lidera esse grupo político dominante. Isto é, condições não faltaram. 

Por que essa tamanha participação no poder central não se reverteu em melhorias das condições sociais e econômica do estado? Primeiro, o grupo que tomou o poder desde 1965 percebeu que manutenção do poder local, por força das condições política daquele momento e pelas condições econômicas do estado, dependia da aliança e espaço junto ao poder central. Assim, os ocupantes do poder no estado operaram nessa perspectiva junto ao poder central durante todo o período ditatorial, mas convertendo sempre esse espaço apenas na manutenção do poder. Sob essa visão de poder (poder pelo poder) os repassem e projetos foram pontuais e destinados a setores em que o empresariado estava em total alinhamento político com os que ocupavam o poder político no Maranhão. Nesse período a economia nacional teve altos e baixos, e o Maranhão ficou no seu lugarzinho de inexpressividade. Porém, apesar da continuidade do controle do poder político, ele começou a sofrer desgastes.

No final da década de 1980, com a crise econômica nacional, a dissolução do regime ditatorial e o desgaste político dos que controlavam o poder político no Maranhão apontavam para uma quebra da continuidade do domínio político desse grupo. E isso parece mais inevitável quando Cafeteira, um dos principais opositores da época, foi eleito governador. Parecia o fim de um domínio político. Mas, o que surgia como início do fim acabou sendo convertido em um novo começo.

Sabedor de que a manutenção do espaço junto ao Governo Federal era crucial para uma sobrevida política, o líder do grupo político dominante no Maranhão, senador José Sarney, em uma aposta consistente e bem planeja, abandonou a candidatura aliada dos militares e passou a apoiar o candidato da oposição. Não só isso, barganhou com sua adesão a própria condição de candidato a Vice-Presidente da República ao lado do candidato oposicionista Tancredo Neves. Isso se deu graças a um fator importante para obter espaço junto ao poder central: controle da maioria da bancada de parlamentares do partido (PDS) e da bancada do Maranhão. Com isso ficou fácil usar da legalidade, pois o dispositivo legal que impedia a mudança de partido não o atingia, era o único do grupo que podia mudar de partido sem ser atingido pela lei.  Com esses recursos viabilizou sua candidatura e quando a sorte apareceu, ele estava pronto para recebê-la. (Não será aqui repetido como se deu o primeiro governo civil pós-1964).

A partir daí Sarney buscou recuperar seu mando político local que estava em declínio e, com isso, poder aumentar seu capital de barganha junto ao poder Federal. O investimento de fortalecimento foi total. Chamou Cafeteria, seu principal opositor político, para uma aliança e tratou de submeter aos seus interesses os diversos agentes estatais dos outros poderes. Cooptações foram se propagando em cadeia por cada um dos poderes e, em todos, só as pessoas de sua confiança passaram a ocupar os postos-chaves. Os fiéis e devotos seguidores foram recompensados com carreiras exitosas. Aos “infiéis” e “ingratos” coube o peso da vingança.  

Nessa nova fase tem mais um complicador para retardar a saída do Maranhão do atraso. Esse elemento novo é a investida massiva desse grupo político nos diversos ramos empresariais e econômicos do estado. O grupo passou a participar de todos os negócios. 

Com o “mercado” girando em torno do Estado; uma classe média pequena e, em grande parte, atrelada ao setor público; a massa de consumidores constituída por servidores públicos de baixos salários, a viabilidade econômica ou sucesso empresarial passa inevitavelmente pela posição política ocupada diante do Governo. Isso acabou inviabilizando, em grande escala, a livre iniciativa como fruto de uma economia de mercado, que tem como base o capital produtivo relativamente autônomo do Estado (conforme a utopia liberal).

Sendo assim, o grupo político dominante passa então a ser sócio-empresarial-mor, tutor econômico de todo o Maranhão. Qualquer investimento ou empreendimento só se concretiza ou se viabiliza cedendo sociedade e conformando-se aos direcionamentos políticos do grupo ocupante do poder público.  Nesse contexto, a política virou uma forma de ascender socialmente e ser aliado do Governo virou o meio mais fácil de existir empresarialmente.

Daí que, ser empresário bem sucedido e sobreviver tem que estar no Governo e não oferecer ameaça aos atuais controladores políticos do Estado. Caso contrário, a competência fiscalizadora e repressora do Estado age eficazmente, não pela convicção do dever a cumprir e observar a legalidade, mas como instrumento de chantagem e perseguição aos que querem resistir aos donos do poder. Cabe dizer que, a mão invisível, no Maranhão, não existe nem em termos teóricos, já que nesse espaço operam mãos e dentes concretos e visíveis.

Tudo que veio ou foi reivindicado junto ao Poder Central, nesse período citado, foi meticulosamente escolhido para atender as particularidades econômicas/empresariais do grupo, garantir a alimentação da pilhagem do Estado, servir prioritariamente ao interesses dos aliados e à manutenção do controle político. Todos os investimentos e empreendimentos foram subjugados aos interesses particulares de um único grupo e em total prejuízo para o povo. Só entra e só se instala no Maranhão quem sede às exigências desse grupo. Não importando o quanto isso possa gerar de mais miséria e sofrimento para o povo. São cruéis, perversos, vingativos e destituídos de qualquer compaixão. Quem se coloca em oposição a eles tem que assumir o ônus da punição, pois não perdoam e nem sabem o que é isso! 

Repete-se assim a fórmula: o Maranhão é mantido insignificante para o Brasil para evitar as pressões externas, facilitando a manutenção do poder local. Ao mesmo tempo o estado é mantido nesse patamar econômico para evitar que internamente surjam grupos econômicos fortes, desatrelados do Estado/Governo  que possam potencializar as pressões internas que visam tomar o poder político e desbancar o controle empresarial e econômico do grupo que está atualmente à frente do poder político.

Como isso é possível? Isso é possível porque o grupo dominante goza de muito espaço junto ao poder central, conta com um alto grau de subalternidade e cumplicidade nos demais poderes e a economia nesse patamar ainda possibilita a continuidade dos negócios deles, em associação ao controle do Estado.

Constitui-se uma configuração bastante singular tanto do ponto de vista social, econômico, político e histórico. É uma parte da república onde nunca se separou coisa pública da coisa privada e onde ainda persiste o direito de privilégio, a vantagens por nascimento e linhagem. Quem não é de uma família nobre, por mais esforço e mérito que tenha jamais será reconhecido, no máximo, atinge o status de ficar em segundo plano.

No Maranhão existem castas que estão acima das leis, os poderes são personificados, o Estado é, em cada município, parte do patrimônio familiar de quem está na chefia do poder político, o interesse público e o espaço público estão submetidos aos interesses privados, ou melhor, não existem de fato. Os indivíduos que não estão sob o mando do senhor, na condição de séquito e aliado do grupo que domina o município ou o estado não são o que se pode chamar de cidadãos, vivem em uma condição de risco e incerteza permanentes. Essa configuração geral tem provocado uma cultura de apatia, indiferença, conformação e medo, que afasta os indivíduos da Política, dilui as potencialidades de mobilização e, consequentemente, enfraquece a força de pressão, perpetuando a descrença na mudança e na própria capacidade humana de transformar a realidade e perceber a realidade como socialmente construída. Cada vez tornando mais aguda a aposta exacerbada na benevolência da sorte e do destino. 


Mas, mesmo que essa sorte chegue um dia, tudo indica, que ela não será aproveitada, pois essa apatia não tem permitido uma preparação para recebê-la. Iludidos e demagogos acreditam em uma sorte dobrada. Isto é, bem mais da metade que acreditava Maquiavel e , dessa forma, acham que tudo será conquistado sem esforço. 

Repetir é uma necessidade diante do caso: De um lado, a insignificância econômica do estado diminuiu a pressão por parte do grande empresariado nacional e do próprio Poder Político Central. Do outro lado, a aliança política com o Governo Federal, a cumplicidade dos outros poderes e o controle econômico local completam as condições de manutenção do controle político desse estado. Outro elemento é a falta de manifestação de insatisfação popular mais aguda. Até onde o povo vai permanecer assim? Não se sabe! Mas temos que ponderar aí, pois as parcelas mais injustiçadas lutam sozinhas. Quem os defende? 

Enfim, o Maranhão nunca atingiu o patamar mínimo da civilidade instaurado pelos processos modernos, particularmente no que tange a economia, a política, os bens sociais, os direitos etc. e, ao que parece, já está à margem da pós-modernidade. Seria uma espécie social-histórica pós-pós-moderna? Quem pode saber!? Certeza é a dificuldade de acordar e dormir sob essa mesma escandalosa e miserável invenção!!! 

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