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A LUTA DE CLASSES SEM CLASSES


Conheci um agroboy na UNESP que sempre dizia: “Se trabalho fosse bom,  Marx teria escrito O Trabalho, não O capital”. 


O Mundo Moderno se edificou e se moldou, em grande medida, pelas organizações profissionais, organizações de trabalhadores que, impondo sucessivos fluxos de pressão, condicionaram a forma de reprodução do capital na sua forma capitalista.


Pegando um pouco da teoria Funcionalista, pode-se dizer que o movimento sindical/operário carregou nas suas ações duas dimensões oposta. A dimensão manifesta, que se expressava nas reivindicações em torno de direitos e garantias sociais. E a dimensão latente que, contraditando o discurso pró-socialismo, acabava sendo o fornecedor das soluções que garantiram a sobrevivência do próprio capitalismo. Isto é, foi uma enfermeira aplicada que trazia o remédio na hora e na dosagem certa, mesmo que o enfermo não pedisse. Isto é, veio ao socorro do enfermo e lhe garantiu a sobrevivência. No pensamento de Marx equivaleria ao ato de se reinventar. Ou, no ver funcionalista, ato aparentemente de disfunção (movimento operário) acabava sendo funcional ao sistema e cumpria assim a tarefa de realimentar o sistema. Fazendo justiça ao funcionalistas não- mecanicistas, pode-se a firmar que a disfunção é parte do sistema e nem sempre se constitui em problema para a existência do todo. Em resumo: o caos seria funcional à ordem quando, no mínimo, é a sua condição  de existência. Enfim, nem todo funcionalista pensa idêntico. 

Os discursos acalorados, cujo mote era a exploração do Capital sobre o Trabalho, encontrava sua âncora mais  sistematizada em O Capital, de Karl Marx. Denunciavam a forma como o trabalho alienado destruía e impedia o desenvolvimento das potencialidades humanas. O trabalho estava escravizando em nome do capital, não humaniza. Os trabalhadores e as organizações sindicais acabaram protagonizando atos marcantes em todo o século XIX e XX. Passaram a ser eleitores-chaves nas diversas arenas do campo político ocidental.

Os trabalhadores do mundo contemporâneo diante da automação, desemprego estrutural e crises econômicas assumem uma postura cada vez mais reativa. Hoje, a grande reivindicação é manter empregos ou reduzir as horas de trabalho, mesmo com redução de salários. Pouco ou quase nada se fala sobre a continuidade da exploração do capital sobre o trabalho ou da super-exploração, que cresce à medida que novos elementos tecnológicos são colocados a serviço da produção.


Para ver isso, basta equacionar jornada de trabalho e nível tecnológico e científico do século XIX com os do século XXI.  A exploração é muito maior, pois com a tecnologia existente não é necessário manter as atuais jornadas de trabalho. Por que não temos mais tempo livre? Qual a necessidade de manter tantas pessoas presas à rotina do trabalho? Por que em contraposição ao trabalho alienado não se reivindica o direito ao ócio?


O primeiro de maio é quase um ato patronal e um “Panis et Circenses”. Uma manifestação obrigatória, imposta e alienada. Falta o espontâneo, o criativo, a inventividade e a liberdade para usar as horas do dia ao seu bel prazer.


“Aquele que tem consciência de seu lazer é ocioso; este, a quem é necessário que se informe onde está o seu corpo, é um mortiço e, assim, de que modo pode ser senhor de qualquer parte do seu tempo?” (Sêneca)
(originalmente publicado em 01/05/2002. http://ethospolitico.zip.net)

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