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QUEM FAZ CALAR, CALA-SE!


Desconfio de democratas  que consideram a liberdade e a pluralidade como objetos de conveniências e não como elementos estruturadores do regime político. Liberdade e pluralidade são princípios, não são alegorias descartáveis sob pretextos.

Ciro Gomes está longe de ser o dono da verdade. Mas é necessário compreender que viver liberdade e pluralidade exige tolerância. Os dissonantes acabam fazendo parte da música geral. Os aliados não podem ser só os que concordam. Se todos olharem somente de um ponto, no mínimo, o grupo está abdicando de ver o todo pelas múltiplas possibilidades de ser visto. Quem só olha de um ponto dificilmente verá o todo, principalmente em realidades que não sejam bidimensionais.

A redemocratização ocorrida pós 80, do século passado, não se deu no mesmo ritmo em todas as frentes, em todos os segmentos do campo político e da vida do povo brasileiro. Sobre esse particular dediquei vários parágrafos de minha tese. Por exemplo, o sentimento de democracia que prevalece até hoje em alguns partidos e agremiações não são propriamente da Política, pois não tem viés público e é extremamente corporativo. Partido que não cultiva democracia numa perspectiva maior não vai ser afeto à Política como fenômeno constituído de espaço público. O Público como vivência de contraditórios e responsabilidades coletivas.

A transição conciliada, não Conciliada, como bem frisou Michel Debrun, possibilitou a continuidade de um corpo político não acostumado com democracia ou que só a vê em momentos de conveniência, sejam dos autobatizados de esquerda ou de direita. O caso demonstrativo dessa sinergia entre esse tipo de esquerda e esse tipo de direita é o caso Ciro Gomes. Por que a saída de Ciro foi tão festejada pela grande imprensa, que sempre o trata ou o qualifica com alguém agressivo, pavio curto etc.? Por que a imprensa paulista tem tanto interesse em desqualificar Ciro? Por outro lado, por que o DEM festejou a saída do Ciro da disputa presidencial e pensa em vitória no primeiro turno?

Vaidade. Ciro não é muito diferente dos demais que estão compondo a classe política brasileira, mas nesse caso teve humildade: ele se dispôs a ser o quebra ondas para garantir mais segurança na praia da campanha de Dilma.

Ciro tocou em dois pontos com os quais concordo e sobre os quais já tratei em textos anteriores: 1- o debate e uma polarização política ancorada em São Paulo; 2- a necessidade de mais uma candidatura pró-governo.

A inexperiência de campanha e disputa eleitoral da Dilma é algo que tem que ser levado em consideração. Sem a candidatura do Ciro a carga de ataques contra o governo não é distribuída. Dilma se tornou um alvo fixo. Além do PSDB e do DEM, no primeiro turno, ainda teremos as indagações e os pronunciamentos dos partidos de menor tempo de propaganda eleitoral gratuita, mas que estão funcionando e vão se esforçar para mostrar que existem. Alguém tem dúvidas de que a candidatura de Marina vai ser útil ao Serra? Quem fez as críticas mais duras ao governo Lula e ao PT até agora? Dilma vai ter que responder ou explicar tudo sozinha sobre todas as coisas do governo Lula e do PT. Bem aí vai fazer falta a candidatura do Ciro que, além de ter experiência em disputa eleitoral, fez parte do governo Lula, foi ministro e certamente atrairia parte dessas críticas. O Ciro não ia ter tantos condicionantes para fazer certos ataques necessários, forçando o Serra e os demais candidatos a terem que perder tempo respondendo a ele. A Dilma poderia respirar mais livre. Então qual o medo petista de Ciro? Na verdade não é um medo petista, mas um medo dirceuniano: Ciro sair fortalecido e mais credenciado para a disputa de 2014. Assim como o PSDB tem o peso do seu morto-vivo: FHC... com o PT não é diferente. É esperar para ver... O horário eleitoral está chegando. Liga a TV e assiste. Companheirada, não custa nada ler algumas outras coisas que estão por aí. Em 2007, Jonah Goldberg lançou uma obra intitulada Liberal Fascism. Já está traduzida para o português do Brasil.

O PT (Partido dos Trabalhadores), apesar não ter sido um partido único, foi um partido, até essa eleição, de um único candidato. Lula, por mais que tenha sofrido ataques da imprensa durante sua carreira, o saldo tem sido positivo para ele. Isto é, Lula sempre gozou de um considerável grau de simpatia de parte da imprensa brasileira. Quem, em certa medida, ajudou o lulismo a crescer e a diminuir o petismo foi a grande imprensa.
O sonho dos setores mais reacionários da política brasileira é destruir o petismo. Vide a insistência sarneysista em neutralizar os petistas do Maranhão, em querer afundá-los no caldo da indistinção, de que tudo é a mesma coisa. Voltemos ao assunto principal. Dilma não é Lula e a imprensa paulista, que é a grande imprensa hoje no Brasil, já deu sinais de pouca condolência para com a ex-ministra Dilma.

Por outro lado, essa contaminação pê-eme-de-bista do sistema partidário e político brasileiro é nefasta. Um partido existir sem um projeto político maior, sem um projeto unificado e coletivo, ser apenas um aglomerado de interesses meramente personalistas e de conveniência é perigoso ao regime Democrático e Republicano. Olhemos como opera a direção nacional do PMDB e o PMBD de São Paulo. Quércia vai de Serra e não abre. Michel Temer vai de Quércia e não abre. Isto é, no colégio eleitoral mais significativo do Brasil, na região onde a candidatura de Dilma pode ter sacramentada sua derrota, o PMDB, partido dito aliado, que reivindica o posto de Vice- Presidente na chapa de Dilma, cujo nome a indicar não é nada menos que seu presidente, Michel Temer (um político paulista).

O que disse o Estadão ontem:

“O acordo estreita ainda mais os laços entre PSDB e PMDB em São Paulo e vai contra decisão da cúpula nacional do partido, que fechou aliança com o PT para apoiar Dilma Rousseff na disputa presidencial em troca de indicar o vice.

Presidente da sigla no Estado, o ex-governador Orestes Quércia já anunciou, entretanto, mais de uma vez que seu candidato à Presidência é Serra. “

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,apoio-a-serra-da-ao-pmdb-uma-secretaria-em-sao-paulo,543852,0.htm

O Temer, presidente nacional do PMDB, tem acerto com Quércia, José Sarney e Dilma. Seguindo a moda do palavriado de Zygmunt Baumer, o PMDB e sua direção são realidades líquidas!

A família Sarney, em geral, aposta em mais de um candidato. Busca se calçar por todos os lados. Na era FHC, José Sarney, o patriarca do clã, foi um tipo de primeiro ministro no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. No segundo mandato de FHC, o seu filho, O Filho (Zequinha) foi ministro do Meio Ambiente de 1999 até 2002. Ficou como ministro praticamente todo o segundo mandato de FHC. No governo Lula, o patriarca e a filha tornaram-se aliados desde o primeiro mandato, mas Zequinha, tempos em tempos, faz críticas ao governo Lula. Em 2005, Sarney Filho foi pessoalmente entregar a lista de assinaturas para instalar a CPI do Mensalão. Essa CPI criou uma situação política difícil para o presidente Lula, que quase sofreu um golpe. O presidente Lula e o ex-ministro Ciro Gomes afirmaram, em entrevistas recentes, que houve uma tentativa de golpe nesse período.

No ato de entrega da lista de assinaturas (da CPI do Mensalão) para Renan Calheiros, que na época era o presidente do Senado, Zequinha disse: “devem ser apuradas com rigor”. Hoje, em pleno pleito presidencial, o Zequinha está com Marina, candidata do seu partido, o PV (Partido Verde). É de conhecimento de todos que o PV está coligado com o PSDB em estados eleitoralmente importantes. Essa militância verde é âncora política dos Sarney em caso de vitória de Serra.
Sarney Filho é, em muitas análises locais, colocado em uma posição sem importância para a perpetuação do mando político da família. Isso me parece um erro. Zequinha é Filho, mas não bebê. Há 27 anos ocupa uma vaga na Câmara Federal. Chegou lá aos 26 anos de idade. Mais da metade de sua vida, 53 anos, está a serviço da continuidade da família no controle político do Maranhão. Está no 6º mandato consecutivo. Sempre fiel e leal ao pai e a irmã, pois toda vez que diz que é ideologicamente diferente deles, acentua ainda mais o papel que lhe cabe em prol da família. Se Serra for o vencedor, Zequinha estará lá, tentando garantir a sobrevivência politicamente da família. Que filho e que irmão.

O aprofundamento de uma polarização fechada entre PT e PSDB como polos, assume cada vez mais a cara de bipartidarismo de conveniência. Não existe polarização só quando tem dois polos. Polarizar é ter capacidade de interferir nas ações do outro ou dos outros. Mas o que mais importa destacar aqui é o estreitamento do discurso em torno de dois mandatos do PSDB e dois mandatos do PT. Onde vai ficar o Brasil nisso? Onde questões importantes vão ter espaço? Se os partidos de poucos minutos de TV não insistirem em ampliar o debate, mostrar os novos desafios do país diante do cenário internacional, a necessidade de uma reforma política ampla e de aprofundar o poder da participação dos cidadãos, expandir os instrumentos de controle externo e transparência das instituições públicas e privadas, o discurso vai ser um troca-troca de acusações totalmente infértil para o Brasil.

Por outro lado, a complexidade e a diversidade que compõem o Brasil precisam ser discutidas e pensadas em um momento como esse. A Avenida Paulista é parte do Brasil, não é síntese do Brasil. É algo significativo, mas é o todo. O resto do Brasil tem muitos pequenos cuxás, rapaduras, maniçobas etc.

Voltemos: Por que a aliança do PT com o PC do B no Maranhão é uma preocupação para a direção nacional do PT? Por que o Quércia com PSDB não é? A direção nacional do PMDB (Michel Temer) não vai fazer uma intervenção no diretório estadual do PMDB de São Paulo? A aliança pretendida aqui no Maranhão não é com o PMDB? Se a aliança é partidária, não deveria existir uma reciprocidade? Se a direção nacional do PMDB fizer Quércia recuar, fica um pouco mais “compreensível” uma intervenção do diretório nacional do PT no Maranhão.

Porém, porém, começo a suspeitar de algumas coisas: a) Maranhão faz parte do nacional ou São Paulo não faz parte do que conhecemos como Nacional; b) a aliança que a direção nacional do PT quer que o PT local faça é algo totalmente singularíssimo, se levado em consideração os partidos que apoiam a candidatura Dilma e os desdobramentos das alianças nos demais estados. Deve existir uma lógica de orientação nacional (e de interesse nacional) que só é aplicável no Maranhão; c) o voto no Maranhão é como jogo de basquete, tem arremesso que vale três pontos e vai compensar o apoio do PMDB de São Paulo a Serra; d) Só sendo um Zequinha para ter direito a discordar e ter opinião própria; e) dizer isso tudo, nesse momento, pode não me render frutos doces... Porém, só sei ser eu mesmo. Os atos de debater, expor opiniões parecem que estão se convertendo em pecado nesse momento “religioso” da política brasileira. Ser aliado não é ser estúpido. Aliado estúpido é sonho de tirano. Quem faz calar, cala-se, pois destrói para si mesmo a possibilidade de ter com quem dialogar, perde a oportunidade de saber o que os outros olhos captaram da paisagem.

Torço e peço para que se concretize meu engano. Que as concepções e atitudes do senhor Dirceu estejam certas. O que está em jogo não é só uma disputa eleitoral. A condição nacional, a democracia e a república estão em jogo também!

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