segunda-feira, março 08, 2010

PRÉ, NEO, PÓS OITICICA

Hélio oiticica foi um desses caras difíceis de domar o “espírito”. Criativo e capaz de ir a viagens mais longas, ele não só quis produzir arte, mas buscou fazer um conceito de arte, uma forma de experimentar a arte e a vida. Isso porque suas experiências ultrapassaram o campo convencional da plástica.
Considero-o, ao mesmo tempo, um artista precursor e o que abriu os elementos do limite, do extremo da produção artística só efetivada posteriormente. Era o nascimento e morte conjugados. O que Oiticica fazia não continha só um esboço ou um pré do que hoje chamam de Instalações, mas tinha algo, além disso. Lembro-me de uma Bienal (São Paulo) em que foram expostos alguns Parangolés e Bólides e lá estava o seguinte: uma sequência de ambientes formando um caminho e cujo ponto “final” era um vaso sanitário com um televisor à frente. O fim não é bem o fim. Pois ali estavam os elementos para o desenvolvimento de uma experiência além da mera contemplação do ali posto. A arte não se finalizava nos materiais, prosseguia na interação do indivíduo com aqueles elementos, com o ambiente. Rompia a distância entre obra de arte e espectador. Você estava literalmente na arte dando um tom a mais. A própria arte estava em movimento na interação do indivíduo com elementos dispostos no ambiente.
Pode-se dizer que era uma antevisão da substituição do homem sentado no trono lendo um jornal por um homem sentado no trono diante de uma tela. A arte sondando os desdobramentos sociais.
Essa proposta já estava nos paragolés, que só atingiam sua dimensão mais estética quando eram vestidos, ganhando forma e movimento. Da mesma forma estava abolida a distância entre espectador e obra arte. A arte só existia quando estava em movimento. As instalações de hoje ainda estão caminhando na direção de uma maior complementação com a interação.
Os elementos eletrônicos, a imagem, a virtualidade já estavam postas por Oiticica. Materiais reaproveitados e colagens, superposição, o instantâneo, o midiático. Uma situação convulsionada e ainda não nominada fazia parte de sua arte. O incêndio no acervo de Hélio Oiticica no ano que passou, talvez tenha sido uma tentação do gênio buscando uma composição para além dessa materialidade. Algo no além.
“O Hélio fez o "Parangolé", uma capa derivada da porta-bandeira da escola de samba, para o cara dançar com ela nas costas... Isso tem muito pouco a ver com pintura ou escultura. A experiência de Hélio dentro da linguagem neoconcreta chega ao limite com a série de "Bólides", construções em que se misturam formas cúbicas com material quase deletério, como se fossem vísceras. Quando vai para o "Parangolé", no meu ponto de vista, ele sai das artes plásticas. Mas é uma experiência válida”. (Ferreira Gullar em entrevista à Folha 19/10/2009).
Nisso Oiticica também tem o mérito de reclamar o reconhecimento da estética vivida e experimentada nas favelas: os (as) passistas, os estandartes, as fantasias... Enfim, cores, formas, movimento...
Um Parangolé de amores para todas as mulheres!

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