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JOGO DA AMARELINHA



Conheci esse jogo na infância, em Itapecuru, minha cidade natal, lá esse jogo recebia o nome de Cã-cão. No Brasil, o tradutor da obra de Julio Cortázar, adotou a forma usada na região sudeste, especialmente no Rio: jogo da amarelinha. Não importa isso agora... Vamos de amarelinha (sem matar o Cã-cão).
Não tenho suporte intelectual para esmiuçar o significado e a importância dessa obra de Cortázar, mas, do pouco que apreendi dela, levou-me a tomar de empréstimo a ideia do jogo da amarelinha e metaforizá-lo enquanto recurso interpretativo.

Amanheci com a lembrança de O jogo da amarelinha, a obra de Cortázar. Tive contato com essa obra na década de 80 ou início da década de 90... Sei lá! Já está ficando difícil precisar certas coisas. Desde o contato inicial a considerei intrigrante e desafiadora.

O que importa é dizer que agora percebi o recurso (o jogo da amarelinha) com plausível na interpretação da nossa configuração política. Destaco os motivos:
- O jogo da Amarelinha é constituído por um espaço que apresenta diversas cisões, dimensionamentos, como se fossem territorialidades, dimensões sobre domínio;
- Cada território corresponde a um número, um valor diferenciado;
- As múltiplas divisões constituem os que são de lá (outros), os que são de cá (nós);
- Temos o inferno e o céu, temos o que está em baixo e que está em cima. Subida e descida (êxitos e fracassos);
- Nítido cenário de oposição: em cima/em baixo, céu/inferno, de lá/de cá/os outros;
- Forma-se o movimento com alternância, descontinuidade e uma unidade de opostos;
- É um jogo. Todo jogo tem regras e enquanto possuidor de regras torna possível certo grau de previsibilidade, em diferentes níveis mais complexidades, no que compreende o espaço regulado. Jogar é conhecer as regras do jogo;
- Enquanto jogo toma tanto o viés de escolhas racionais, como pode assumir o caráter lúdico, o prazer e a satisfação, e o juízo estético (kantiano), onde a sensibilidade, a razão e emoção se aproximam e até se fundem;
- O jogo da amarelinha de Cortázar joga com o real e irreal, típicos das supostas boas intenções dos discursos de palanque.


Olhando para o nosso cenário político é visível perceber que há possibilidades reais de elementos que compõem os outros, os que são oposição, pegarem a pedrinha para tornar possível a escalada iniciática de passagem. Ir avançando nas casas, em cada um dos diferentes lugares desse espaço. O cenário nunca foi tão favorável à mudança como agora. Cabe agora buscar, na terra, a pedrinha e lançá-la para ir avançando no jogo. Agora... quem é que vai jogar a pedrinha? A mão?


As nossas cisões, até agora, foram marcadas por linhas muito tênues e solúveis, onde sempre é possível um pouco dos de lá (os outros) passarem, automaticamente, para o lado de cá (nós) ou desaparecerem enquanto outros. Porém, essas operações ocorrem sem drama. É análoga a uma tela, em cuja imagem os opostos se fundem na forma de um contínuo, produzindo indistinção e homogeneidade. Um caso ímpar de permissividade e promiscuidade política. As supostas distinções ideológicas caem diante da fluidez.


Os que compõem os outros nunca foram totalmente revelados, sempre estiveram sob névoas. Forma de auto-defesa estratégica. Portanto, nunca foi possível identificar exatamente o que eles podem trazer de descontinuidade, de alternância e de continuísmo. Parte do é considerado características do outro não passa de um contraste  imaginário. Alguns dos outros não são mais que um estoque alternativo do continuísmo. Qualquer movimento oriundo dos que não fazem parte dos de cá, nem dos de lá,  já estabelecidos no jogo, necessita sair da névoa da homogeneidade e descortinar sua forma. Isto é, assumir uma posição minimamente diferenciada e para além da diferença imaginária. Há uma gritante falta de contraste na paisagem política e está sobrando os tons "degradês".


Exemplo minimalista da dinâmica de nossa configuração política. 
O JP de domingo traz, na coluna do Dr. Pêta, uma análise sobre a posição que Castelo assumirá nas eleições de 2010. Logo de início o articulista tenta dizer que ele não vai apoiar o candidato dos Sarney e que o acerto é para ele ficar quieto. Enfim, que a história não é bem assim, que ele ficando quieto não está apoiando ninguém. Esse discurso do JP é um exemplo da alternância entre real e irreal proposta por Cortázar, mas levada a um extremo que o autor nem conseguiu imaginar.


Qualquer indivíduo informado sobre política sabe que: não fazer nada contra o que está no poder é apoiá-lo da forma mais calorosa possível.
Dizer que vai apoiar os outros “por debaixo do pano” segue o mesmo caráter da alternância entre real e irreal. Aqui realidade e fantasia se fundem numa dimensão estética e de gozo, mas não ética. Clara ruptura com a perspectiva kantiana de que só podemos perceber as coisas enquanto fenômeno (e não a coisa em si). É metalinguagem petiniana. Os românticos, de forma plástica, sinalizaram - com crítica à razão - a brecha entre coisa em si e o fenômeno. Schopenhauer e Nietzsche apresentaram, de forma diferenciadas, saídas à questão, mas Pêta brilhantemente abdicou dos três em um lance magistral. O nosso jogo da amarelinha (Cã-cão) espantaria até Cortázar!











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