domingo, junho 16, 2013

Eles não combatiam ditadura, só desejavam tomar o lugar do ditador...


O que mais está atordoando esses senhores? É o novo... a forma fora do convencional, sem aqueles líderes babacas fazendo discursos merdas... sem aquele aparelho de partido...e sem aquela cambada de intelectuais formuladores da doutrina... Todos estão órfãos... e isso assusta... e aí caem no desespero de xingar etc., etc. As indignações não são recentes..estão presentes cotidianamente nas redes sociais.. o que tem de novidade nesse momento é que a moçada percebeu que só a internet não basta... as ruas precisam ser ocupadas.

Por que essa dupla PT e PSDB não lançam conjuntamente O BOLSA CIDADANIA, já que ambos brigam pela paternidade do Bolsa família? Ou um Estatuto do Cidadão, proibindo o uso do cacete, bombas, cachorros e cavalos  contra cidadãos em gozo dos seus direitos políticos? 

sábado, junho 15, 2013

Mais de 60% dos brasileiros reprovam atuação da polícia, diz FGV

"13/12/2012 - 14h57

Fernanda Cruz
Repórter da Agência Brasil
São Paulo – O relatório sobre a confiança da população na Justiça, elaborado pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que 63% dos brasileiros estão pouco ou muito insatisfeitos com a atuação da polícia. O percentual de insatisfação foi maior entre os mais pobres, 65%, e ficou em 62% entre os mais ricos.
"É um dado alarmante, principalmente se considerarmos os últimos acontecimentos envolvendo o assassinato de policiais e diversas pessoas na periferia [de São Paulo]", disse Luciana Gross Cunha, professora da FGV e coordenadora do Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil).
A pesquisa também traz o Índice de Confiança na Justiça que, no segundo e terceiro trimestres deste ano, registrou 5,5 pontos, considerando uma escala de 0 a 10. O índice é obtido com base em casos concretos, como quando o cidadão recorre ao Judiciário para resolver conflitos. O indicador leva em conta a opinião da população em relação à celeridade, honestidade, neutralidade e custos de acesso à Justiça.
Segundo a pesquisa, o Judiciário é considerado moroso para 90% dos entrevistados, por solucionar os processos de forma lenta ou muito lenta. Além disso, 82% das pessoas consideram alto ou muito alto os custos de acesso ao Judiciário e 68% acreditam ser difícil ou muito difícil usar o sistema. Outro dado revela que 64% dos pesquisados avaliam o Judiciário como nada ou pouco honesto, e 61% nada ou pouco independente.
No ranking das instituições mais confiáveis, as Forças Armadas lideram com 75% das opiniões, seguida pela Igreja Católica (56%), Ministério Público (53%), grandes empresas (46%), imprensa escrita (46%), governo federal (41%), polícia (39%), Poder Judiciário (39%), emissoras de TV (35%), vizinhos (30%), Congresso Nacional (19%) e partidos políticos (7%).
Foi avaliada também a confiança em relação a determinados grupos do convívio social. A família ficou em primeiro lugar, obtendo a confiança de 89%, seguida por colegas de trabalho (34%), vizinhos (30%) e, em último lugar, pessoas em geral (21%).
A pesquisa ouviu 3.300 pessoas no Distrito Federal e em sete estados (Amazonas, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul), no segundo e terceiro trimestres do ano.
Edição: Carolina Pimentel"

Minhas considerações: Já disse que a PEC 37 é equivocada e inoportuna. Equivocada porque quer colocar no ralo do corporativismo uma questão de ordem Política, Pública e de Estado. Isso não é uma questão de categoria profissional e nem deve ser manipulada como ferramenta de carreira. Não pertinente e soa totalmente inoportuna quando traz a restrição de investigar ao Ministério Público em um momento em que o país vive corroído pela corrupção e descrédito das instituições políticas. O ponto mais absurdo é querer restringir um instituição autônoma (republicano) em prol de um órgão subordinado ao poder Executivo. A pesquisa deixa claro o que o povo tem como entidades confiáveis. 

sexta-feira, junho 14, 2013

A incrível eficácia da força repressiva e as manifestações contra o aumento da passagem em São Paulo

Foto: Estadão

As manifestações contra os aumentos das passagens...
Quando no Brasil participação política foi tipificada como "formação de quadrilha"? É democracia? Quem são os dirigentes dessa democracia? 
As manifestações contra o aumento dos preços das passagens fizeram emergir com maior intensidade as vozes, as faces e as mãos do nosso mais genuíno produto: o Autoritarismo. Esse componente social e cultural é um ponto em comum entre os que tradicionalmente se autodenominam tanto de esquerda como de direita. 

No Brasil, o autoritarismo não pode ser visto apenas como componente dos momentos ditatoriais de ruptura constitucional, trata-se de um elemento norteador presente culturalmente, socialmente e politicamente na nossa realidade.  Portanto, Democracia nunca foi valor de primeira ordem para os que lideraram as ditaduras, nem para os que se colocavam em oposição a elas. As disputas e os enfrentamentos deram efetividade a um jogo pela alternância no controle do aparelho repressivo do Estado, um querendo tomar o lugar do outro no gerenciamento da opressão. O valor maior é ficar no topo da cadeia autoritária.

Recentemente assistimos São Paulo, a maior e a mais rica cidade do país, com um PIB maior que os PIBs de países vizinhos, ser sitiada por criminosos do PCC, que praticaram diversos atos terroristas contra o povo. Não eram ações promovidas por cidadãos comuns, mas por membros de uma facção criminosa. Os governos federal, estadual e municipal passaram dias debatendo a questão sem promover uma reação massiva. O que eles faziam? Debatiam, tentando equacionar dilemas de competência por conta da alta fragmentação do Estado. O Estado foi sucessivamente remendado, perdendo congruência ao ponto de não ter uma ideia institucional firmada e facilmente identificada. Ele está fortemente desarticulado, particularmente enquanto federação e república. Enquanto isso, os criminosos agiam e acuavam os cidadãos sem sofrerem repressão massiva  da Forças de Repressão. Onde estavam os efetivos e as armas da polícia quando os bandidos aterrorizaram São Paulo? Como o Estado se mostra impotente, ineficaz contra a criminalidade e, logo em seguida, aparece com toda grandeza e eficácia para massacrar cidadãos, jovens, mulheres que estão exercendo legítimo direito de reivindicação e protesto? Como o aparelho repressivo não promove segurança pública nem inibe eficazmente as ações dos criminosos  que assaltam, estrupam, sequestram, roubam e matam cidadãos de bem?  Por que tanta força e repressão contra participação política? Estranho!

Passe Livre
Esse episódio deixou evidente que as forças de segurança são ineficazes e omissas quando é para promover Segurança Pública, mas altamente eficaz para reprimir cidadãos em gozo de seus direitos (em tese). Isto é, as forças de segurança ainda são formadas prioritariamente para realizar Repressão Política.

Reside nesse fato um consenso entre os entulhos autoritários de esquerda e de direita. Não sem motivo, tucanos e petistas estão em silêncio diante da dura e massiva repressão contra os manifestantes que lutam pela redução dos preços das passagens de ônibus coletivos. Particularmente nas cidades de São Paulo, Rio ,Porto Alegre, Goiânia, Natal, Brasília. Isso revela a força e a intensidade das similitudes políticas entre os irmãos siameses: PT e PSDB. Desde 1985 esses dois partidos estão se reversando na manutenção das excrescências autoritárias e antidemocráticas no poder. 
O PT e PSDB são os maiores artífices da destruição do avanço democrático no Brasil. O Estado desfigurado e a república com reduzido ethos cívico, facilitou a implantação gradativa da diluição da democracia na vida cotidiana, configurada através de um processo dissimulado de engessamento da participação política. Os principais agentes e organizações mobilizadores ficaram atrelados aos chefes dos governos e fingem-se de mortos. Cadê as centrais sindicais, entidades estudantis, partidos etc? Os "líderes" estão mamando através de algum cargo comissionado, assessoria etc. 

Esse processo fez com que diversos segmentos sociais e categorias profissionais perdessem força crítica, ativismo e capacidade propositiva. A participação foi restringida ao ato mecânico de votação eletrônica, que em si praticamente anula o poder fiscalizador direto dos cidadãos. As eleições não são transparentes, mas totalmente invisíveis.

Tudo foi gerado sem alarde porque teve como cortina a estabilidade econômica, cujas referências de sucesso estão representadas pelo controle inflacionário e o aumento do consumo por parte significativa da população. Essa "inclusão" consumista teve como uma de suas alavancas o programa Bolsa Família, que já soma 13,8 milhões de famílias cadastradas. Esse programa tem garantido a transferência direta de renda às famílias de baixa renda, que empregam diretamente esses recursos no consumo direto.

Com essa convergência de fatores, o autoritarismo ganhou estabilidade e sobrevivência confortável, o que gerou um contágio retrógrado e conservador em todas as instituições. Basta ver que a Reforma Política nunca aconteceu, o sentido e a condição mesma da oposição tomou forma ineficiente politicamente, em grande medida o empate entre governo e oposição é despolitizado. Quais os grandes projetos ou bandeiras defendidas atualmente pelos partidos? Qual as alternativas apontadas pela oposição?

Nesses dias de manifestação presenciamos um violento e infame ataque à Democracia, que consiste na criminalização da participação política. Querem impor como verdade que a liberdade política não deve ter garantias. Que democracia existe sem garantia dos direitos? Que democracia é essa, onde os Governadores dos dois maiores estados do país (São Paulo e Rio de Janeiro) tentam desqualificar as manifestações de rua por serem atos políticos? Em qual democracia os cidadãos não podem praticar Política? Não é um absurdo um ocupante de cargo político colocar como indesejadas manifestações políticas? Sem ser percebido como ditadura vivendo um período autoritário marcado por corrupções.

Os ataques ferozes dos ocupantes do poder contra a participação política, para além do ato restrito de votar, refletem a lama autoritária que domina o Aparelho de Poder e as principais instituições políticas no Brasil. Eles não suportam Democracia, porque ela exige vida política, cidadania ativa. Demonizar a Política é sugerir sua morte. Estamos em uma ditadura disfarçada com um "Estado máfia", onde não existe mais reserva moral e comprometimento mínimo com  os interesses gerais.

O que querem os donos do poder? Querem estabelecer como doutrina a liberdade sem liberdade, onde todos podem ser livres, mas não para participar.  O cidadão pode votar, mas não pode realmente participar da condução dos negócios públicos. Isto é, o cidadão não poder fazer manifestações políticas. O que é a cidadania nisso?

Hoje ficou claro que não temos aparelho de segurança pública, mas um aparelho monstruoso de repressão política, pautado na anti-democracia.  

Cabe observar que o direito de ir e vir está sendo exaltado somente em nome do que possuem carros. O ir e vir só pode ser garantido para os que têm carro? Assegurar o direito de ir e vir não é cabível quando implica em dar acesso ao transportes públicos? Podemos gozar do ir e vir quando não podemos pagar o transporte coletivo? Temos também que destacar o crescente montante de subsídios dados às empresas de ônibus nas últimas décadas. Além do que arrecadam com as passagens ainda existem subsídios. Algo que precisa ser investigado. Falta transparência nesse negócio entre políticos e empresas de transportes coletivos. 

Essa situação revela um Estado politicamente enfraquecido, sem ideia institucional de interesse público definida. Os Executivos e os Parlamentos viraram consórcios de partidos e lobistas, em ações análogas a da máfia. Retalhando pastas e investimentos sob a égide de percentuais propositadamente para alimentar interesses privados (individuais e corporativos). Reside aí a promiscuidade das verbas públicas com caixas de campanhas eleitorais. Quem vai fazer a reforma política que precisamos? Como impediremos tantos corruptos de continuarem ocupando o centro do poder? 

Agora testemunhamos o verdadeira alma "democrática" dos que outrora combatiam a ditadura. Qual sentido de "democracia" que alimentavam instaurar? E se os atuais ocupantes do poder, que se reversam como parceiros dos fósseis do autoritarismo, tivessem tomado o poder na década de sessenta? Pois são eles, em quase sua totalidade, que estão no comando do poder político. 

No mesmo quadro dos espantos e horrores anti-democráticos fica registrado o comentário do Arnaldo Jabor, projeto malfadado de imitação do Paulo Francis, que não disfarçou sua visão estreita e reacionária diante das manifestações de rua contra o aumento das passagens. No olhar congelado e anacrônico desse senhor as manifestações são reduzidas a ações de uma esquerda latina ultrapassada. Isso não é só posição, mas patologia de quem perdeu a capacidade de perceber mudanças e o novo. Triste ainda constatar que após elogiar as manifestações na Turquia, porque são contra a islamização, o senhor Jabor finalizou seu comentário afirmando que as manifestações não valem vinte centavos (R$ 0,20). Esse é o preço da cidadania no leilão dos setores reacionários que controlam o país.

Como já frisado: o autoritarismo é o ponto de convergência. Jabor com esse comentário assumiu o discurso doutrinário petista contra as classes médias. Marilena Chaui e Arnaldo Jabor são idênticos quando a questão é ser contra a participação democrática.

Porém, a capacidade humana de produzir novas realidades não cessa, mesmo quando a política é massacrada. No mundo inteiro as ruas estão sendo ocupadas por pessoas que não suportam mais ficar a deriva no mar das artimanhas dos poderosos. O novo quando surge faz ruir ou confunde visões cristalizadas. Muitos desqualificam as manifestações por não encontrarem nelas os velhos paradigmas de manifestação e participação. Quem disse que as manifestações atuais precisam de um aval das falidas e viciadas instituições? O caminho da participação está ganhando forma fora dos partidos políticos, sem o ranço das ideologias e doutrinas que moldaram os últimos séculos.


No Brasil as manifestações denunciam a corrosão Política e os ataques à Democracia  produzidos pelos antigos opositores do "regime" militar que, após a abertura política, associaram-se com as vertentes mais expressivas do autoritarismo e do conservadorismo retrógrados, deixando o povo entregue à própria sorte, sem hospitais, sem segurança, sem transporte, sem educação de qualidade. O que precisa ser criminalizado são os políticos corruptos! 

terça-feira, junho 04, 2013

Hoje é terça do quadradinho de oito


O quadradinho de oito é uma colossal peça do nosso momento histórico. Vivemos a marca de sermos a 7ª economia do mundo, mas sem desenvolvimento (combinação de crescimento econômico, melhoria na qualidade de vida, diminuição de desigualdades e mais efetivação de direitos). 

Nunca fomos tão maltratados na assistência médica/hospitalar, é horrorosa as condições dos transportes coletivos urbanos, as estradas a falta de melhores serviços nos aeroportos e absurda perversidade de manter o país sem trens de passageiros (tudo alimentado por lobby). O país ainda está aquém do nível regular de saneamento, esgotos e lixos não tratados atinge a quase totalidade dos nossos municípios.  
A educação é um capítulo vergonhoso, por um lado a massificação do acesso e de outro as precárias condições de funcionamento das entidades de ensino, tudo combinando com uma crescente desvalorização dos profissionais da educação, que ganham bem a quem do que corresponderia justamente às exigências de qualificação e atribuições profissionais. 

A violência cresce de forma absurda. Os crimes se multiplicam e a ideia penal no Brasil virou um carnaval sombrio: a desumanidade faz alternância com complacência e impunidade. O Estado perdeu a capacidade de gerir a pena e as vítimas são totalmente esquecidas. 

Você cria dádivas, mas sem garantir direitos. Isso é o quadradinho de oito.
A estupidez reinante entendeu que fazer justiça social é estritamente comer todo dia, que combater pobreza é unicamente garantir um renda mínima. Comer todo dia evita algumas tragédias, mas não resolve, por si só, a questão da pobreza acentuada. Pobreza nunca foi só menor quantidade bens materiais; sobre o pobre também recai o desprestígio social e inúmeras outras carências. "Nem só de pão vive o homem". 

Hoje o Brasil ESTÁ com menos necessitados, mas não TEM uma quantidade menor de pobres. A situação atual não revela uma mudança no grau de autonomia e capacidade pessoal de sobrevivência. Isso, para a grande maioria dos assistidos não teve aumento. Permanecem como clientelas, e boa parte é subjugada pelo uso eleitoral da distribuição dos benefícios. Soma-se a isso, o vergonhoso montante de pessoas cadastradas no bolsa família de forma indevida. 

O quadradinho de oito é a lógica reinante, mostra o grau de mentalidade e abstração que impera de cima para baixo e de baixo para cima. A corrupção é geral. 

A comissão da verdade já tem uma verdade. Não busca o esclarecimento dos fatos e nem chama todos para um reflexão sobre os caminhos desnecessários tomados no passado. Não. A comissão da verdade está insistindo erroneamente em apresentar uma verdade sem contraditório, mas está atirando no pé. Em um contexto de agudo descrédito dos políticos e das instituições políticas, não parece inteligente travar bate boca com ex-membros dos órgãos de repressão, tão pouco formar palanque para eles. Quem disse que 100% da população acha que o Golpe foi desnecessários? Se a pergunta for direcionada para saber a aprovação ou reprovação quanto aos métodos de tortura e às prisões, é muito provável... que a maioria esmagadora dirá que reprova. Mas isso não quer dizer que eles concordassem com uma revolução comunista ou socialista. Isto é, nem todos que são contra a tortura, foram ou são contra ao enfrentamento ao comunismo ou socialismo. Ainda existem os que acreditam na necessidade de uma intervenção preventiva. O bate-boca com os ex-militares (do período ditatorial) possibilita a eles serem  apoiados pelo coro dos descontentes. Basta ver como repercutiu algumas falas nas redes sociais. A verdade da Verdade pode ser a não planejada.  

Aposto que aquela bem intencionadas senhoritas ... pensaram que o quadradinho é um dado, que é um cubo. O cubo NÃO TEM oito faces, mas TEM oito vértices. É uma questão de boa vontade. Se não fizer tal esforço não é politicamente correto. Eis uma das lógicas do nosso tempo: onde a realidade e a abstração não coincidirem com os esquemas de enaltação pró-perpetuação no poder, serão anuladas ou estendidas até onde podem servir de justificação, pouco importando a consistência, o que mais importa é a distração dos sentidos em forma de festa fascinante. Tanto assim, que a precariedade, a decadência é enaltecida como manutenção das tradições e da originalidade. 
Enfim, chegamos à fórmula politicamente correta de cada um no seu quadrado. 
Hoje é terça do quadradinho de oito no país endinheirado que fica mais pobre. 

domingo, junho 02, 2013

Na estrada com Elias


Na estrada com Elias. Encontrei esse flamboyant vermelho na BR 135, próximo da Fazenda São José. Olhei essa árvore e um belo arquivo da minha memória foi ativado. Certa vez resolvi ir de Ribeirão Preto a Salvador de ônibus. Verifiquei o trajeto em um mapa e tudo pareceu perto e sem demora. Concluí: uma viagem fácil e rápida. A minha mente ficou povoada de curiosidades sobre as paisagens do sul da Bahia e do interior de Minas. Ainda mais que estava de posse de uma câmera fotográfica monoreflex, SLR 35 mm da marca Zenit.  Pois bem... eis que a hora da viagem chegou e na plataforma estaciona um ônibus nada igual ao que aparecia na propaganda da empresa. Logo em seguida vi que as pilhas de caixas e malas que estavam na plataforma, sem nenhuma restrição, foram lançadas nos bagageiros do ônibus. Só o ato de carregar os bagageiros garantiu, logo no início, um atraso. 
Quinze minutos depois e as malas, pacotes etc. ainda não estavam todos acomodados no bagageiros.  Uma multidão de cidadãos na porta do ônibus, todas ávidas para pegar o seu lugar. Os passageiros começam a entrar no ônibus... grudados aos seus corpos mais sacolas, bolsas, rádio-cassete-cd e um imponente  poodle branca, um contraste diante das faces queimadas de sol. Fiquei hesitando, pensando em desistir da viagem. Respirei e comecei a pensar no lindo mar de Salvador, na enseada perto do Farol da Barra e em Amaralina, Mercado Modelo, Pelourinho e os shoppings, os shoppings sim. 
Saí procurando a cadeira trinta e alguma coisa... O bagageiro superior estava abarrotado de coisa, uma sacola laranja de napa se destacava... Sentei do lado da janela... Do meu lado uma senhora com seus mais de 60 anos de guerra, cabelos já brancos. A vizinhança estava composta pela dona do poodle, ao lado, na frente o dono do rádio+cassete+cd, na poltrona atrás tinha uma senhora deitada ocupando as duas poltronas. 
Motorista deu partida e teve início a odisseia desse negro-índio-cristão novo-pardo. Som rolando, poodle agitado e um turbilhão de conversas. 
Tempos depois a senhora que estava do meu lado desceu em uma cidadezinha, em Minas, fiquei só e de posse das duas poltronas. Deitei, tentando dormi, mas não consegui. Fiquei lá quieto ouvindo as histórias. A viagem foi isso as pessoas iam relatando suas vidas uns para os outros: os empregos, as dificuldades, os lances de sorte etc. Um senhor, que estava sentado na parte dianteira do ônibus passou periodicamente a ir conversar com a dona do poodle e assim foi se entrosando com todos, contava piada, cantava. No início da noite ele já era conhecido de todos. O som rolando axé ou algo assim. na madrugada a discotecagem passou ao comando desse senhor contador de piadas. Cada canção mais melancólica do que a outra... Abri meu kit-sobrevivência: bolachas recheadas e maças e comecei a enganar o estômago. Já bem tarde ... o ônibus começou a cair em buracos, trepidação infernal. Começa uma chuva de coisas sobre a minha cabeça: saboneteira, um vidro de desodorante de Rastro, uma escova de cabelo.. Por fim caiu a sacola laranja de napa. 
Cansaço, desconforto e sono. Cochilava e despertava sucessivas vezes. Algumas pessoas resolveram fumar dentro do banheiro, o odor do cigarro tomou conta do ônibus. Abri a janela e fiquei olhando para as estrelas. O rádio do cara continuava ligado. Terminei mais um pacote de bolacha. Foi amanhecendo e  pude ver o sertão... a imensa caatinga, as elevações do terreno, as casas. O ônibus foi, aos poucos, esvaziando. Cada um que descia deixa sua saudação de boa sorte. Pequeno vilarejos, casinhas solitárias em meio à imensidão de galhos secos e pedras. 
O céu azul, bem azul, dia claro...o ônibus avançava rumo a Salvador, que para mim já era também salvação. Peguei o livro "O que é sociologia" de Norbert Elias e comecei a ler calmamente... Fiquei refletindo sobre o conceito de configuração. Em um instante olhei para o lado e vi bem ao longe uma casinha branca com um flamboyant vermelho florido ao lado... O Branco da casa e o vermelho das flores destoavam excessivamente do cenário. Aquele lugar estava resumido a galhos secos retorcidos, sem nenhum verde, nenhuma cor... O ônibus foi descendo a ladeira e fui perdendo de vista a casa e o flamboyant. A partir daí batizei a viagem de Na estrada com Elias. 
Comi a última maça e pensei em jejuar até Salvador. A ansiedade já tão grande que pensei que Vitória da Conquista já era um bairro de Salvador. Não era um bairro da capital baiana e para piorar Salvador ainda estava longe. 
O poodle ficou em algum lugar entre Vitória da Conquista e Feira de Santana, ficou em um local onde a solidão e o abandono possuem um endereço aparentemente fixo. Imaginei aquele poodle na caatinga, descendo do altar dos braços de sua dona e ficando face-a-face com um cacto. Sua dona deve ter entrado nas histórias locais com a hipertrofia das impressões sobre sua conquista urbana: o poodle. Muito provavelmente foi pioneira local na tentativa de transplantar um status aparente a partir de poodle.
Desta maneira vivi quase mil e novecentos quilômetros dentro de um ônibus. Viagem que se prolongou por trinta horas, seis horas a mais do que eu esperava. 
 "Por configuração entendemos o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores - não só pelos seus intelectos mas pelo que eles são no seu todo, a totalidade das suas ações nas relações que sustentam uns com os outros. Podemos ver que esta configuração forma um entrançado flexível de tensões. A interdependência de aliados ou de adversários." (N. Elias)

quinta-feira, maio 30, 2013

Sílvia Pfeiffer de Fausto Fawcett - um manifesto (pós) - anterior a Levy e Baudrillard..

Quem lembra? Pois é.. belo manifesto do Fausto Fawcett. Isso tudo feito quando Baudrillard e Pierre Levy ainda não eram moda sobre a novidade pós-moderna! 

"Sílvia Pfeiffer

Copacabana
Foi transformada num super gueto de capitalismo exacerbado.
Um território, paralelo à Sarney e à Teófilo Moreira,
Um vácuo financeiro e industrial dominado por gigantescas empresas transnacionais,
Gigantescas empresas armamentistas brasileiras.
Copacabana está repleta de telões, passando gigantescas imagens de tudo.
Os habitantes do super gueto capitalista, no meio da vertigem audiovisual,
Costumam concentrar seu olhar no maior telão do mundo,
Onde passam ininterruptas imagens da mais bela e sofisticada das manequins, a manequim número um:
Silvia Pfeiffer.
E o que sentem os habitantes de um super-gueto capitalista?
De tanto ver o mundo ser transformado em imagem,
De tanto ver a vida ser transformada em show de realidade patrocinada,
Eles já não sabem o que é, e o que não é real.
Não sabem se os seus sentimentos são seus mesmos
Ou se são ficção de personalidade.
Bombardeados pelo delírio das ficções comerciais e não comerciais,
Eles vivem envolvidos com mundos que só existem no desejo.
Para eles, o invisível já é uma coisa muito vulgar, o transcendental já é algo tão banal,
Devido às excessivas fotos, vídeos, filmes,
Sobre a anti-matéria, sobre os espectros microscópicos,
Devido às excessivas imagens divulgadoras do invisível.
E quando o invisível já é uma coisa muito vulgar, quando o transcendental já é algo tão banal,
Que emoção espiritual resta para os habitantes de um super gueto capitalista,
Cujos olhos estão magnetizados pela excessiva presença de gigantescos televisores?
A ultima emoção espiritual, é a fascinação.
Fascinação por imagens cada vez mais artificiais,
Imagens que os façam pensar em mundos não humanos, em universos paralelos.
E quem são as heroínas dessa fascinação espiritual?
As manequins das revistas de moda mais sofisticadas.
Incorpóreas ladies, garotas de fisionomia etérea, mestras da sedução calculada.
No meio da vertigem audio-visual, os habitantes de um super gueto capitalista
Costumam concentrar seu olhar no rosto da mais bela e sofisticada das manequins:
A manequim número um.
Mundos não humanos,
Universos paralelos,
Fascinação espiritual,
Mundos que só existem no desejo.
Sílvia
Pfeiffer"

segunda-feira, maio 27, 2013

Blade Runner .. a última página da modernidade das luzes, a concretude diluída do desencantamento do mundo.






Blade Runner .. a última página da modernidade das luzes, a concretude diluída do desencantamento do mundo.
Eis o filme ficcional que celebra as potencialidades diversificada da sociedade produzida pela doutrina Iluminista, cientificista, da crença na razão e na ciência. Blade Runner diz em todos seus quadros que a tecnologia não é para libertar a todos, os guetos continuarão mesclados de atrativos tenológicos e miséria. O dilema da criação persiste, mesmo na criação-reflexa posta como réplicas.  
A cultura como efervescente pluralidade de sintéticas experiências. Tudo é um enigma, todos estão entorpecido nas imagens que criaram. O ar é sombrio, a vida ficou sombria sob a trama corporativa-tecnológica. Não há espaços mais para manhãs claras, para campos verdes e floridos.  O desencantamento se tornou o todo no nada. 
O melhor filme de ficção tendo como pano de fundo a hiper expansão  da sociedade moderna, desdobrando-se no epílogo da contemporaneidade. Nenhum filme criou uma atmosfera tão exageradamente visceral, profética e apocalíptica do curso das promessas da Modernidade.  O mundo aparece supremamente nu, a vida sem nenhum rincão de encanto para utopias paradisíacas. Guetos, misérias, crimes e tecnologia estão em alucinado movimento e instantaneidade solúvel, sob um circo tecnológico de imagens. As dúvidas mais primitivas persistem não solucionáveis.  
O século vinte abriu a página do mundo Blade Runner e a cada novo século é mais uma  linha  escrita do fim. 

 SEM PROPOSTAS - ELEIÇÃO PRESIDENCIAL 2022 O que tem movido os eleitores brasileiro diante das candidaturas à presidência da República este ...