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sexta-feira, agosto 17, 2012

Política: a Crônica crônica da coisificação

Autor: não foi possível identificar.

No Maranhão, intelectualidade é exercício de vaidade, deleite ou qualquer outra coisa, mas bem pouco tem a ver com compromisso acadêmico e responsabilidade com o conhecimento científico. Impera, desde os primórdios, uma intelectualidade predominantemente estética e poética. Agora, no entanto, o achismo começa a assumir o controle do pensamento. Difícil encontrar uma exposição fundamenta ou que seja fruto de observações e investigações cuidadosas. As generalizações nascem e são lançadas movidas exclusivamente pelas idiossincrasias.

Nesse meio há uma dificuldade enorme de fazer uso de aspas e de indicar o que está parafraseando. Cada um procura dizer de um jeito “inovador” o que já foi dito para não citar o trabalho alheio. Essa arrogância é recorrente. Não é à toa que diariamente encontramos textos onde os autores repetem:  “Eu já disse isso”, “eu escrevi isso anteriormente”, “como escrevi no passado”. Enfim, todos são donos, ninguém toma nado emprestado, tudo nasce originalmente dessas super-cabeças.  

A Crônica é a ferramenta da narrativa desse meio “analítico”, “crítico”, “reflexivo”, “interpretativo”. Observa-se que são poucos os adeptos da forma padrão - narrativa na primeira pessoa. Outros desconsideram a ordem cronológica dos acontecimentos. No entanto, há uma notável impecabilidade no subjetivismo. Também de grande monta o uso dos recursos literários: metáfora, ambiguidade, antítese... Porém, é o estilo que encontra leitor. Quem vai ler textos na forma de artigos científicos?

Consolidou-se no Maranhão tratar os fenômenos políticos por uma via literária e humorística. Existe nessa literatura uma dificuldade de considerar a totalidade e o contexto, além de tratar de forma indiferenciada conjuntura e estrutura. Porém, os problemas mais agudos são: monocausualismo e coisificação dos fenômenos sociais. Essa visão torna imperativo ver os fenômenos como coisa para fora, tudo acontece de um lado de fora, como se fosse possível existir um lugar desligado e imune aos efeitos e à composição da totalidade, do contexto. Soma-se diluição e enfraquecimento da complexidade dos fenômenos, que são multiplamente produzidos. A dimensão multicausal parece ser algo herege. Prepondera uma dialética-sem-mundo.

O que deveria ser exploração de conceitos não passa de reprodução naturalizada dos mesmos. Não informa, não descreve o dado, mas mistifica. O problema da subjetividade não é ela existir, é ignorar a necessidade do esforço de seu policiamento. É amiga e inimiga (E.Morin). A palavra jogo pouca vezes é utilizada enquanto conceito e referida à teorias. Por exemplo, teoria dos jogos, das escolhas racionais. Tão pouco é entendido sobre o jogo que o mesmo não é visto com disputa que possui regras e diversos níveis de complexidade, dentro de uma dada configuração (N.Elias).

O achismo tem feito assento em clivagens a partir de categorias que não possuem comprovação de terem centralidade e grande influência nas interações e ações políticas, não motivam e não dão sentido as mesmas. Isto é, categorias que nunca foram comprovadas como elementos ordenadores dos posicionamentos e tomadas de decisões políticas.

O sarneísmo é uma manifestação contemporânea de mandonismo. As oposições com a mentalidade corrente estão produzindo, nesse espaço político, um paradoxo ortodoxo, similar ao formulado por Kahler.  

Estamos confortavelmente tomados por crenças e dogmas puristas, coisificação de fenômenos sociais, dualismo determinista e falseamento.  Nunca fomos tão obscuros e superficiais... Realidade. O que é realidade?


sábado, junho 23, 2012

A morte de Décio e as formas e estruturas elementares do passionalismo político-partidário



O roteiro é plausível... Mas as falas e os argumentos das personagens apresentam falhas, descontinuidades, incoerências etc. Alguns trechos são obscuros. Porém, isso faz parte de qualquer caso, nem todos os envolvidos fazem registros idênticos; a seletividade da memória impera em todos os níveis da realidade social e em qualquer situação.

Os crimes desvendados são os que as lacunas foram em maior grau eliminadas, assim como as omissões e incoerências. Mas sempre vai faltar alguma coisa, pois essa coisa jamais vai ser encontrada entre os envolvidos diretamente.

As coisas que sempre faltam residem nas expectativas, na força imaginativa, nas fantasias e nos desejos que residem no interior dos grupos sociais que compõem aquele dado contexto, aquela realidade social. Isso tem a ver como o caso é representado, interpretado e valorado. Quem alimenta e produz tudo isso? São os diversos indivíduos não envolvidos diretamente no caso, mas empenhados em saber e elucidar o fato. Todos nós somos ávidos em exercitar a imaginação sob o forte impulso da curiosidade.

Um absurdo está sendo consolidado: a versão do assassino tomada como a mais absoluta verdade. Não podemos esquecer que estamos diante de mais uma VERSÃO. Trata-se de um discurso elaborado do lugar que ocupa o assassino, nesse caso o único autor preso. O discurso de quem está preso. Repito: preso. 

Cada informação desse caso precisa ser checada, averiguada e confrontada com outras versões. A delação premiada não faz esse ou qualquer criminoso virar o fiel da verdade. Ao ponto de uma confiabilidade absoluta.

O roteiro apresentado para esse assassinato é plausível, porque esse formato de crime, com tal performance é comum no Maranhão. O diferente foi o setor social onde ocorreu e os vínculos que possuía a vítima. Mas essa prática de barbárie não é rara sobre outros setores sociais que, historicamente, são massacrados de forma continuada em nosso estado, tais como: índios, negros, lavradores, quilombolas etc.

O que ficou evidenciado com o suposto “currículo” desse matador? Que no Maranhão um indivíduo desse naipe leva uma vida tranquila e sem incômodos dos poderes constituídos. Como alguém com tantos crimes ainda estava solto? Só estava porque devia gozar da cumplicidade e parceria de alguns desses poderosos. 

O homicida, na forma de “assassino de encomenda ou de aluguel”, só permanece na atividade onde existe espaço de acobertamento e proteção de pessoas ligadas a um dos poderes. Não existe pistoleiro livre e vivo sem que haja ineficácia do poder coercitivo do Estado. Alguma coisa não está funcionando bem nas instituições existentes nas cidades por onde residiu esse assassino.

Esse tipo de assassino foi escolhido a dedo, pois é o tipo “perfeito” para tal brutalidade.  “Perfeito” porque: (1) - pelo currículo, pela forma como pratica, mata sem precisar muito de “plano”, sem preocupações maiores com o lugar, com testemunhas, com a movimentação. Postura de quem respirava brutalidade. “Perfeito” (2) – Porque ao reunir tais características era mais fácil de ser descartado pelo (s) mandante (s), na forma de queima de arquivo.

Quem contrataria um matador-de-aluguel sem nenhuma discrição e brutal para matar um jornalista conhecidíssimo e funcionário do grupo político mais poderoso do estado sem pensar em se livrar dele logo em seguida? Quem teria tal ideia sem pensar em se livrar, logo em seguida, do matador contratado? 

Quem imagina que o assassino é totalmente despossuído de inteligência? 
Quem cometeria um assassinato nesse padrão e escolheria escalar uma duna para fugir? Essa duna foi plano ou uma saída do plano? 

Alguma pequena coisa pode ter dado errado, provocando o aguçamento do instinto de sobrevivência desse criminoso, fazendo-o descer da moto e se evadir pelo mato. Talvez seja esse o motivo de ter permanecido vivo. O que ele percebeu ou o que seu comparsa percebeu? Ou o que ambos perceberam naquela ação? 

Fugir na madrugada sem camisa e com uma pistola ponto 40 na cintura... ou sei lá onde, não é nada comum, ou é ? Eis uma versão. Livrou-se do carregador, mas não quis se livrar da arma. É plausível? Mais uma versão. Qual foi mesmo a trajetória dele para chegar até a Curva do Noventa? Para onde foi o comparsa?  Eles se dividirem deve ter fugido dos planos de alguém.  

Ainda não constatamos, através de leituras, nada sobre o paradeiro do motoqueiro que estava com o matador. Acharam a moto? Também não vi nada escrito sobre as circunstâncias e os suspeitos de terem matado aquele “envolvido na morte do Décio”, no Araçagi.

Décio teve mesmo a coragem de dizer para os criminosos que sabia quem eles mandaram matar? Quem disse isso? Qual a prova disso? Quem eram os jornalistas presentes nesse almoço? Eles conheciam os bandidos e mantinham diálogos como eles? Essa parte tem uma falha de continuidade. Isso tem alguma comprovação?

Esse texto foi produzido com o objetivo de demonstrar que qualquer pessoa pode achar qualquer coisa. O achismo é uma prática cultural nossa. Qualquer um, do interior da sua casa e lendo blogs, jornais e/ou ouvindo rádio e vendo TV, pode chegara a inúmeras conclusões, suspeitar mais de cem vezes de qualquer coisa, criar sua versão e acreditar no que bem quiser.

Fazendo uma retrospectiva, considero que a Polícia fez um bom trabalho. Inclusive nas omissões e demoras. Só lamento não terem acionado plenamente a polícia técnica para  que os outros envolvidos falassem mais. Deveriam usar mais de recursos científicos de persuasão para que os outros envolvidos dessem mais detalhes. Por que não foi feito isso com esses outros?  

O que pesa bastante nesse processo de esclarecimento é o grau de passionalismo oriundo da política-partidária. O Maranhão vive a miséria do pensamento dualista entre o anti-Sarney e Pró-Sarney. Ser contra ou a favor de maneira automática e cega é compartilhar de uma mesma doença: fanatismo.  Muitos estão descrentes e incrédulos porque o desfecho não foi em conformidade com suas expectativas, nem suas “verdadeiras” suspeitas. No meio disso, o que é mais do que esperado, brotam todo tipo de teoria conspiratória. Quando falaram que tinha um parlamentar envolvido, cada agente dessa teia de passionalidade doentia buscou apresentar seu suspeito. Hoje entender qualquer coisa ou explicar algum fato diante dessas mentes pró e anti é uma tarefa inglória. Por isso, não faltam dúvidas e suposições.


quinta-feira, março 22, 2012

O que é o sonho?

Autor que não foi possível identificar

O que é o sonho? A utilidade e função do sonho? Freud buscou relacionar os sonhos com tentativas de realizar desejos. Na verdade o sonho foi um elemento fundante da psicanálise freudiana, sua via régis. Particularmente como manifestação do inconsciente pensado por Freud. 

Lacan e tantos outros mudaram o trato e lugar do sonho. Para esse a atenção deveria se voltar para o significante. Porém, os sonhos se reduzem às formulações psicanalítica? Os sonhos muitas vezes acontecem em uma forma de experiência que podemos diferenciar muito bem de outros sonhos, não só isso, nos traz conteúdos que se colocam no devir. 

Qual a necessidade do cérebro viver essas imagens, produzir sensações enquanto o corpo dorme? Os sonhos são realidades, mas tipos especiais de realidade para nossos sentidos e experiência mundo. O sonho seria um vigília não autorizada do consciente perante o descanso de o resto do corpo? Uma insurgência ou falha no nosso sistema, nas funções do corpo? Os sonhos podem ser a revelação somente que nosso corpo não funciona de forma perfeita, e que as imperfeições são úteis para sua eficiente existência. 

No meu entendimento o sonho é social a partir do momento que vira discurso e fica submetido a duas interpretações em contato comunicativo. Do sonho também percebo que as sensações nele experimentadas são indícios que os sentimentos e prazeres têm uma existência sem o contato físico material e sem a percepção da vigília (acordado). Isso não quer dizer que tal existência seja anterior ou pré-existente à vida e à vida social. 

O testemunho é uma condição de tipificação da experiência e da vivência real. O real precisa de testemunha para a memória de cada indivíduo e para o grupo. É esse atestado de verdadeiro que separa o real da criação fantasiosa, fictícia, ilusória e delirante, se não separa pelo menos os distingue intelectualmente e possibilita uma outra ordenação das múltiplas teias de interação social. Nesse caso a realidade precisa do sonho como o outro (alter). 

O sonho persiste enquanto uma experiência da vida da qual não sabemos suas "razões. 


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