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segunda-feira, julho 11, 2016

Memória ética seletiva. Algumas considerações sobre um texto que li...


Memória ética seletiva. Li um texto sobre isso e fiz algumas considerações. Segue: 
A memória para ser memória precisa ser seletiva. Texto faz uma provocação, mas se ancora em uma das coisas mais perversas contra a sociedade brasileira, que é fazer uma crítica aos críticos da corrupção imputando um caráter corrupto à sociedade brasileira. Com o absurdo argumento de que ninguém pode legitimamente criticar, porque todos em maior ou menor escala cometem corrupção. Primeiro erro, esse trato ético desconsidera o contexto ético histórico que compreende as motivações do acatar ou não o valor e qual o grau de importância do mesmo.  Nenhuma realidade ética, fora da mera especulação do pensamento, cumpre o seu status ético sem tensões, conflitos, sem alterar valores e, em boa parte, as mudanças decorrem disso.  Além disso, nunca existiu uma sociedade que todos realizem determinados preceitos ou cumpra a obediência de um valor de forma idêntica. Porém, existe o campo dos atos não aceitos, que correspondem ao que seletivamente foi escolhido para ser repudiado.  No entanto, é cruel e falacioso colocar no nível da corrupção política e da coisa pública desvios da norma que não correspondem à mesma grandeza e gravidade. Isso é como não distinguir crime e contravenção, negligência administrativa de um homicídio. A memória há de ser seletiva porque é necessária. O mais perverso é que querer legitimar os crimes dos poderosos igualando toda a sociedade ao mesmo patamar de delinquência. Isso é uma das piores visões elitistas, porque corresponde a uma visão de que a massa é onde sempre estão os piores costumes e por isso um grupo menor e mais apurado deve conduzir as coisas. O pensamento aristocrático de Platão e Aristóteles residem nisso. Esse texto negligência sob um aspecto fundamental, o espaço público e o que é próprio da política. Também ignora a liberdade própria da democracia e a liberdade liberal. Vejamos. Na democracia todos podem reclamar e emitir opinião independente da sua qualificação, se goza de direito político pode, nada mais importa. E a liberdade consiste em que só os cidadãos podem impor a si uma norma (soberania de deliberar), mas que cada um viva a sua maneira. Na democracia estava divido o que é público e privado. Por isso, é um tanto obscuro tentar julgar o cidadão por atos privados em confrontação com atos de natureza totalmente pública (como é o vaso da corrupção no aparelho de poder do Estado e da administração pública). Do público e para público e todos podem reclamar. Temos também que ver o lado da liberdade Liberal que diz respeito ao fato de não ter impedimento. Também é liberal o fato do indivíduo individualmente ter direito. Ora, o Brasil é uma sociedade profundamente hierarquizada, com distâncias sociais colossais e tal realidade tem componentes e fatores múltiplos de produção e manutenção. Toda vez que um pobre individualmente reclama aquilo que se constitui um direito, o "coletivo" é automaticamente lembrado, mas somente como mecanismo de manutenção da hierarquias e distâncias sociais. Isto é, a defesa do público, do coletivo só é evocada pelos segmentos sociais privilegiados quando isso implica em defender a manutenção de privilégios e/ou como artifícios para assegurar a hierarquização e os elementos simbólicos que necessitam para forjar sua superioridade ou maior qualificação. Se a reivindicação do pobre (que é um direito) significa uma horizontalidade, isonomia e que lhe possa conferir simbolicamente ou materialmente uma igualdade (mesmos atributos e posses), ela é  automaticamente desqualificada de alguma maneira, se não é por falha no ato formal, é por supostas imprecisões e inconsistências, há sempre um estatuto ou uma hermenêutica que possa barrar a pretensão e manter a ordem de privilégios e hierarquia. Os  mesmos artifícios também são usados quando a reivindicação é de um par, de um amigo ou comparsa, mas com efeito diferente e logo esse indivíduo terá seu privilégio perpetuado mesmo que não tenha direito, tenha erros formais, que substantivamente não se sustente e que não passe de um ato de vaidade.  Nesse último caso tudo se pode contra o patrimônio público, jamais tal ato vai ser visto como contra o interesse público e algo egoísta. Se é um pobre, um não igual a coisa muda e automaticamente o direito individual passa a ser irresponsável e egoísta e um direito supostamente coletivo passa a ser enaltecido. A memória é sim seletiva e deve ser. Por isso, os que não são os privilegiados devem ser aguerridos na cobrança e lutar sempre para serem eles os definidores da seletividade ética da memória. Por qual motivo?  Pelo motivo simples e crucial da democracia: ser a maioria.


terça-feira, junho 03, 2014

Onde doxa é episteme

Decorar é algo bem, bem primário. A memorização de procedimentos está inserida na socialização desde os momentos inciais. Abstrações complexas e reflexões exigem esforços adicionais. Produzir conhecimento de caráter científico, ultrapassando a doxa não é uma tarefa qualquer. Produzir cientificamente a partir de uma metodologia qualitativa é difícil. 

Fica mais desafiador se na empreitada a metodologia assumir a dimensão reflexiva, em detrimento do paradigma positivista e a compreensão da relação sujeito-objeto não for cartesiana. 

Não importa o preciosismo linguística e o volume de acertos gramaticais contidos no texto onde foi expressa, a opinião continua somente como opinião mesmo diante do primor da escrita. Quem ainda não demonstrou capacidade de elaborar hipóteses testáveis, domínio sobre indução analítica, teorização enraizada etc. não provou ter ido além da opinião. 

Mas, essas exigências nada importam quando a sociedade está estratificada com base em um sistema de castas, onde a validade das coisas e a condição do sujeito estão aferidos por dotes, prebendas e de cunho nobiliário. Com isso, reis, sub-reis e todos os endinheirados podem reivindicar qualquer posto do "saber", pois basta produzir uma opinião qualquer que a mesma será alçada ao posto de uma valiosa elucubração. Assim, doxa passa por conhecimento, sob massiva divulgação efetivada pela rede de lacaios. 

Como sempre, é um elemento recorrente desse contexto maranhense: o exercício da vaidade. Trata-se de um "dizer" sem qualquer fundamentação pautada em dados, onde o conceito jogo é lançado no texto sem nenhuma teoria, mas como o acaso que produz a crença na sorte. Viva o polida doxa dos senhores!        

 SEM PROPOSTAS - ELEIÇÃO PRESIDENCIAL 2022 O que tem movido os eleitores brasileiro diante das candidaturas à presidência da República este ...