sábado, junho 07, 2014

Fascismo para-estatal, greve e aumento de passagem

A dificuldade de discutir essa questão começa em arrumar um título sucinto. 
A greve no transporte coletivo urbano de São Luís mostrou o quanto a coisa pública não é nada nessas bandas e o quanto alguns senhores estão acima de qualquer institucionalidade. Não há qualquer resquício factual da ideologia do Estado de Direito, muito menos do Estado Democrático de Direito. 

Foi uma greve inequivocamente posta e imposta pelos proprietários das empresas de ônibus, que contam com a sintonia cúmplice do sindicato dos motoristas e trocadores e, pelo visto, com a total complacência da administração municipal. 

O que está acontecendo no setor de transporte de São Luís apresenta características semelhantes ao que Boaventura de Sousa Santos denomina de fascismo  social. O autor diferencia o fascismo social do fascismo estatal das décadas de 30 e 40. Esse fascismo é produzido a partir da sociedade civil, não é regime político, mas social e civilizatório. Não precisa retirar a capa da democracia, basta trivializá-la. Porque é um fascismo "pluralista". Especificamente estamos diante de uma variante do fascismo social que o autor supracitado batizou de fascismo para-estatal, que consiste usurpação das prerrogativas estatais, p.ex.: a coação e a regulação social,  por pessoas poderosas, que contando com a cumplicidade do próprio Estado, tanto podem neutralizar como complementar o controle produzido pelo próprio Estado. Essa modalidade de fascismo comporta a dimensão contratual e territorial.

Na forma contratual, a organização dos Donos das empresas de transporte coletivo estão em uma posição de extrema vantagem em relação a outra parte: os empregados (motoristas e cobradores) ao ponto de impor as condições dos contratos, pouco resta de alternativa aos funcionários. Ao mesmo tempo, o "sindicato" dos Donos dos ônibus reivindica prerrogativas extracontratuais, pondo como se fossem titulares da função de regulação que pertencem ao Estado. Enquanto fascismo territorial disputa com o Estado o controle sobre o território, neutralizando o controle estatal através de cooptação ou coação às entidades estatais, passando a exercer regulação social sobre os cidadãos desse território (sem permitir a participação e contra os seus interesses).

A greve que paralisou cem por cento o transporte coletivo de passageiros não foi só por reajuste no preço da passagem e por mais subsídio, o objetivo maior é manutenção de um privilégio, mesmo que em prejuízo dos cidadãos. O que mais os Donos das empresas de ônibus querem é manter o transporte urbano de passageiros sob a total dependência de ônibus.  

Logo após o fim da greve, os empresários do setor de transporte coletivo de passageiros, através de seu representante, lançaram uma peça publicitária, cheia de maquetes eletrônicas e animações computadorizadas, para anunciar a proposta, por eles concebida, para melhorar o transporte de passageiros em São Luís: O BRT. 

A greve foi para enterrar a proposta de implantação do VLT e impor um projeto que mantém o transporte coletivo de massa feito unicamente ônibus: BRT. Nas grandes cidades em situação administrativa e de planejamento melhor do que São Luís, o BRT está servindo para remodelar o velho sistema de transporte de passageiros por ônibus. Ninguém está optando pelo absurdo de ter BRT como o único meio de transporte de passageiro. Em toda parte do mundo a busca é por diversificação, priorizando os meios menos poluentes, mais seguros e econômicos. 

Esse tipo de "projeto" BRT dos empresários é uma questão de poder. Esses senhores, ao longo de décadas, imperam sobre a cidade sem qualquer constrangimento de nenhum dos poderes constituídos. Os habitantes da cidade permanecem reféns da mentalidade e dos caprichos desses senhores. 

Na fala do senhor empresário que expõe a tal "salvação" aparece claramente a ordem de prioridades: "É bom para os empresários, é bom para os políticos". O mais visível é que os empresários sabem que tem bastante recursos e que querem que esses recursos sejam captados para o BRT. Pelo exposto estudos e um projeto de verdade não existem.
A população, ou melhor, o interesse coletivo, os direitos dos cidadãos ficam como um detalhe a ser encaixado quando for  possível... Ainda mais com o grande alinhamento do representante do poder político da municipalidade com o esforço empresarial de não priorizar o que é de interesse público.

Podia o atraso estar melhor representado?

quarta-feira, junho 04, 2014

Vai ter copa e não vai ter copa


Minha opinião sobre a Copa:
Vai ter copa e não vai ter copa.

Vai ter a copa com evento de Estado, onde o Governo vai fazer uso de todos os aparelhos de repressão para assegurar o funcionamento do evento. Vai ter copa como ato de Estado onde manifestações cívicas serão colocadas como conspiração contra o Estado. Vai ter copa como propaganda política explorando o nacionalismo como recurso ideológico autoritário para suprimir manifestações pautadas por valores cívicos baseados elementos fundamentais de cidadania e de democracia. Vai ter copa enquanto renúncia fiscal a favor da FIFA, que agiu como um Governo da Metrópole em uma colônia. 

Não vai ter copa como ufanismo barato. Não vai ter copa como uma festa geral de civismo alienado sem defender direitos fundamentais. Não vai ter copa confundindo cidadania com torcida de futebol. Não vai ter copa sem protestos. 

O legado é que o civismo vai começar a ser vinculado a direitos e causas públicas, a valores republicanos e democráticos e deixar de ser restrito a uma festiva torcida de futebol. Reivindicar democraticamente não é falta de patriotismo, mas defendê-lo no que é fundamental: cidadania.  

terça-feira, junho 03, 2014

Onde doxa é episteme

Decorar é algo bem, bem primário. A memorização de procedimentos está inserida na socialização desde os momentos inciais. Abstrações complexas e reflexões exigem esforços adicionais. Produzir conhecimento de caráter científico, ultrapassando a doxa não é uma tarefa qualquer. Produzir cientificamente a partir de uma metodologia qualitativa é difícil. 

Fica mais desafiador se na empreitada a metodologia assumir a dimensão reflexiva, em detrimento do paradigma positivista e a compreensão da relação sujeito-objeto não for cartesiana. 

Não importa o preciosismo linguística e o volume de acertos gramaticais contidos no texto onde foi expressa, a opinião continua somente como opinião mesmo diante do primor da escrita. Quem ainda não demonstrou capacidade de elaborar hipóteses testáveis, domínio sobre indução analítica, teorização enraizada etc. não provou ter ido além da opinião. 

Mas, essas exigências nada importam quando a sociedade está estratificada com base em um sistema de castas, onde a validade das coisas e a condição do sujeito estão aferidos por dotes, prebendas e de cunho nobiliário. Com isso, reis, sub-reis e todos os endinheirados podem reivindicar qualquer posto do "saber", pois basta produzir uma opinião qualquer que a mesma será alçada ao posto de uma valiosa elucubração. Assim, doxa passa por conhecimento, sob massiva divulgação efetivada pela rede de lacaios. 

Como sempre, é um elemento recorrente desse contexto maranhense: o exercício da vaidade. Trata-se de um "dizer" sem qualquer fundamentação pautada em dados, onde o conceito jogo é lançado no texto sem nenhuma teoria, mas como o acaso que produz a crença na sorte. Viva o polida doxa dos senhores!        

segunda-feira, junho 02, 2014

Administração Pão massa fina quente


Veio a mim a questão:
Com qual frequência Edivaldo Holanda Jr. administra a cidade de São Luís? 
Resposta: Com a mesma frequência com que encontramos pão massa fina quente.
(Diário da Serpente)

quarta-feira, maio 28, 2014

Para onde rola a Rocha


Entre os políticos, de diversas filiações, o processo de negociação em torno de posições, apoios e recursos já está em ritmo acelerado. Cada um tentando garantir a melhor posição dentro da legenda partidária e do grupo político. Além disso, segue em todas as direções a busca por apoios e parcerias eleitorais. Não há mais tempo suficiente para  ver todos os detalhes. Mas nem todos estão no mesmo patamar de dificuldade ou de possibilidade em termos de eleição e articulação em torno do poder. Alguns estão em posições bem mais confortáveis do que outros, independente de vencer ou não a eleição.

Para alguns o maior dilema é o leque de opções e não a falta de opções e de recursos. Atualmente não parece muito clara a opção de alguns nomes conhecidos e com experiência eleitoral e legislativa. Os melhores exemplos são: Dutra, o guerreiro de Saco das Almas e Roberto Rocha. 

Até agora Dutra ainda não sinalizou bem se quer continuar na Câmara Federal ou se vai tentar a Assembleia Legislativa. Se optar pela esfera local, Assembleia Legislativa - (situação 1) fazendo parte da base do Governo (em caso de vitória da oposição) ou (situação 2) fazendo parte da bancada oposicionista (em caso de vitória do candidato da situação). Em qual esfera ele encontraria mais espaço e maior projeção para projetos futuros?

Outro nome que o desenho da opção demonstrar ainda alguns acertos é Roberto. Apesar disso algumas coisas parecem já estarem postas. Primeiro, não é ganho político permanecer como vice-prefeito de Holandinha. Segundo, a saída, por ele mesmo esboçada, é ir para o Legislativo. Vide sua pretensão ao Senado. Porém, o contexto foi  alterado e algumas outras negociações apareceram para retirar a facilidade da concretização dessa pretensão inicial. O último fato perturbador foi a aliança PC do B/PSDB, fazendo Castelo ressurgir como candidato e com força para candidato ao Senado. Inicialmente Castelo dizia que seria candidato a Deputado Federal. Esse fato novo gerou uma forte alteração no grupo político que Rocha compõe. 

A candidatura ao Senado deixou seu campo de conforto para Rocha. O tempo ficou curto para insistir e para redefinir posições e espaços. Para Rocha é mais do que urgente saber para que lado rolar. Manter-se na opção primeira de tentar o legislativo, no formato original de candidato ao Senado ou alterar. Alterar sem desistir do projeto inicial é possível. Desiste do Senado e opta por uma vaga na Câmara Federal ou na Assembleia Legislativa. A questão é saber qual das duas casas favorece mais seu projeto político de chegar ao Palácio dos Leões. No caso de Rocha não depende só da Casa Legislativa, vai precisar ter um grupo mais afinado com seu projeto ou conseguir um forte credenciamento no grupo atual, construindo apoios e adesões em torno do seu nome.

Mas, nada disso é fácil diante do tipo heterogeneidade esse grupo em torno da candidatura de Flávio ganhou. A vaga de Deputado Estadual visando presidência da Assembleia Legislativa não é tarefa fácil. Vai depender da conjunção de vários fatores: 1- Flávio ganhar; 2- o tamanho da bancada  conquistada pela atual oposição; 3- dependendo do tamanho da bancada, Flávio ou qualquer outro candidato eleito a Governador vai ter diante de si a equação das adesões. A alta ou baixa necessidade de buscar mais apoio na bancada originalmente adversária. Não necessitar buscar mais apoio e conquistar adesões é pouco provável. A conhecida migração parlamentar rumo a quem está no poder tem ocorrido sob acertos nada desinteressados e bem pouco republicanos. Por esse ângulo, a vaga na Câmara Federal parece mais fácil de operar, salvo o tropeço eleitoral. O futuro está como sempre: em aberto. Como Câmara Federal Rocha vai buscar solidificar a preferência pelo seu nome na sucessão ao Governo do Estado... é a questão. O contexto nacional até agora aponta para situações generosas para o PSB, ganhando ou perdendo a disputa presidencial. 

No mais, o plano pode ser duramente alterado no sentido de viabilizar a saída da condição de vice-prefeito, trata-se de assumir mais um posto de vice, Vice-Governador. Aí é uma incógnita danada. Institucionalmente vice não tem competência nenhuma a não ser sanar vacância, a chamada lacuna no comando do poder político. Vice é para ficar mesmo na reversa técnica. Sendo vice as coisas rumarem para ele ser uma espécie de macaxeira - ficar o período todo enterrado e só aparecer para ser descascado, cozido ou frito - ou, por um acerto político, contar com a benevolência do Governador de fazer uma distribuição de tarefas protocolares que lhe garanta alguma visibilidade e poder de negociação. Mas, mesmo com a benevolência, vai diante do vice, na prática do jogo do poder, o Chefe da Casa Civil, que certamente será o homem de maior confiança do Governador. 
Uma coisa é certa... Rocha se vira agora ou vira brita. O tempo praticamente acabou para esse tipo de acerto.

segunda-feira, maio 26, 2014

Sarney: o homem cordial como nostalgia

Já ia dormir ... mas encontrei a Coluna do Sarney com o seguinte título: O homem cordial. Fui ler. 

Logo de início o senador amapaense faz referência a Sérgio Buarque de Holanda, especificamente ao seu "homem cordial" e à obra Raízes do Brasil. Sarney lembra da paternidade do termo, que pertencente a Ribeiro Couto, cuja ideia de cordialidade é de um adocicamento pacificador. de caráter conciliador. 

O senador ressalta a divergência sobre a noção dada entre Buarque e Couto, mas sobre Buarque apenas diz: "Já Sérgio Buarque analisa de outro modo dizendo que nossa cordialidade não era essa de Ribeiro Couto e popular. Ela se vinculava mais à razão do core (coração), em latim."  Bem... a minha insistente tentativa de estudar sociologia, as leituras das obras dos pensadores brasileiros etc., não me deixaram ir dormir sem pensar sobre esse cordial homem e o homem cordial da literatura dominical de Sarney. 

O senador aborda a violência, a copa, o crack,a falta de transporte, a falta de ruas pavimentadas, a falta de transporte público e reclama de prefeituras mais preocupadas coma política do que com o bem coletivo. Pois é. Qualquer um sabe que o homem cordial em Buarque não é caracterizado pela tal fidalguia, mas por uma recusa ao formal e ao impessoal. Elementos necessários à dominação de tipo legal/racional. 

Porém, essa recusa bem serve ao patrimonialismo e ao mandonismo, que bem operam com a servidão voluntária e recurso do clientelismo. Questões só para ilustrar: como se universaliza direitos com pessoalidade e informalidade? Ou como fazer prevalecer  a meritocracia com pessoalidade e informalidade?

Ocultado o homem cordial de Buarque, emerge o homem cordial de Sarney formulado quanto nostalgia, diz Sarney: "O maranhense em particular, sempre um ser pacífico, logo adere à onda nacional e se torna um homem irracional, pronto a reagir por qualquer coisa e mesmo sem respeitar a vida, o maior bem de Deus ao homem, e mata e morre."  Pois é, logo agora. Né? Quem disse que a fúria não está latente em qualquer uma das versões de homem cordial?  

domingo, maio 25, 2014

Estética da irrelevante síntese

Programa habitacional do Lobo para erradicar os casebres 

Os gregos antigos - mais especificamente os ateniense do século V a.C - constituíram socialmente uma modalidade de poder e um modo de vida que expressavam uma estética de liberdade, cujo gozo consistia em ter sob as mãos capacidade exclusiva imposição sobre si. Ao lado disso, estabeleceram a condição de todos ocuparem o centro (locus desse poder soberano) por sua vez. Em um universo delimitado para homens livres, iguais perante a Lei e ao direito igualitário à palavra. 

Ora, esse sujeito cidadão tinha a incumbência de manter-se livre com a participação, que em si já concretizava a condição de liberdade. Isso estava pautado em uma dinâmica pedagógica de governar e ser governado. Acreditavam que o melhor para governar era o que soube obedecer. Os gregos não queriam correr o risco de abrir brechas para governantes tiranos, déspotas.  

Ao contrário do que muitos pensam, a Democracia não é algo cômodo diante da desigualdade social. A desigualdade já existia e por contra das lutas contra as desigualdades que a participação na condução dos interesses coletivos ultrapassou o círculo restrito da aristocracia guerreira. A Democracia foi o que possibilitou, em uma sociedade com desigualdades, o pobre ter voz e poder participar do governo das coisas públicas e da liberdade de participar da soberania da capacidade exclusiva de impor algo sobre si. 

Onde entra a estética da irrelevante síntese? Exatamente nas entranhas do ethos político instaurado e alimentado no Maranhão nesses últimos anos, especialmente no período pós Vitorino Freire. 

O velho Vitorino foi um tipo político de transição, entre os velhos coronéis do sistema coronelista e os novos mandões pós Revolução de 30. A Revolução de 30 estabeleceu uma outra dinâmica, totalizada  no espaço regulado, o que impôs outras regras de jogo no campo político. Onde passou ser imprescindível operar por dentro da institucionalidade para converter, a partir dos marcos da legalidade, o impessoal e público em privilégios de mando personificado e patrimonialista, para abastecer interesses privados. Tem início o surgimento de novos profissionais da política até o patamar de policymaker. 

O Maranhão teve uma ilustração desse processo de mudanças, encenando estar no passo rítmico do capitalismo e da modernidade implantada no centro-sul. No passo até estava, mas em uma posição pouco relevante dentro da dinâmica do passo. Não por falta de representantes políticos estaduais no centro do poder político nacional. Bem, o modelo de desenvolvimento adotado no país privilegiava uma região e deixava pauperizadas as demais regiões do Brasil com graus acentuados de concentração de renda, capitais, tecnologias e população. 

Esse modelo de desenvolvimento não conseguiu efetividade sem as marcas de um forte fechamento político e predomínio do autoritarismo. Como o comando do autoritarismo alegava, como justificativa da sua existência e permanência, ameças internas e externas às instituições democráticas, o regime se faz refém de sua lógica interna, ficando obrigado, durante 21 anos, a manter um mínimo de institucionalidade democrática, mesmo ela sendo mais aparente do que real. Tal arremedo de democracia produzia, ao mesmo tempo, a exigência de um grupo de políticos civis operando na institucionalidade a favor do governo autoritário, como base de apoio e fazia os militares sucumbirem aos caprichos dos interesses pessoais de liderança políticas em cada região e estado da federação em troca de apoio que atenuasse a falta de legitimidade. 

A militarização da política fez contaminar as casernas de políticos. A essa politização dos comandantes possibilitou o mais agudo processo de fazer o velho mandonismo encarnar nas leis. Tornando todo o aparato institucional submetido aos ritmos das querelas e demandas particulares de forças regionais. O apoio garantia um manto para as ações que convertem os bens e aparelhos públicos em meras agências do interesse privado, produzindo grupos de empresários e ricos senhores constituídos através de vantagens extraídas  a partir do controle dos aparelhos de poder do Estado. Trata-se de uma subsunção da instituições políticas à ordem mandonista e patrimonialista dotada de técnicas modernas de gestão e marketing político. 

A hegemonia autoritária ganhou uma proporção tão significativa que definiu, em linhas gerais. o tipo e o teor da transição política que, longe de ser um banimento político do regime autoritário e de seus seguidores, assumiu um tom conciliatório dando todas as condições de continuidade para o corpo de políticos aliados do regime autoritário. No final, a transição  não significou o fim dos representantes políticos do autoritarismo, mas suas emergências enquanto forças no centro daquilo que parecia os negar: a volta da democracia. Isso só foi possível porque o processo de redemocratização foi paralisado ou reduzido na sua amplitude. E em um paradoxo revelador, mesmo que estranho, essas forças conversadoras estão ocupando, desde 1985, postos estratégicos em todos os governos, destaque para os governos encabeçados pelos antigos opositores do Golpe de 1964 e ao regime autoritário instaurado por ele. Com essa fórmula atenuada de redemocratização,  os mandões (de todas as regiões do Brasil, as pobres e as ricas) e o empresariado alimentado com ganhos extraídos  diretamente do erário, na forma de contratos barganhados por privilégios e favorecimentos, assumiram uma posição de influência e de manobras dentro das instituições políticas jamais registradas em nossos diversos períodos políticos. 

A redemocratização foi estancada por dentro, pela própria via da institucionalidade democrática. Por uma lado, foram desenvolvidas ações continuadas visando conformar a grande massa da população com uma participação restrita ao processo de votação, hoje quase só ritual diante sérias questões que envolvem o voto eletrônico nos moldes atuais e, por outro lado, não permitindo o aumento de mecanismos decisórios sob controle direto dos cidadãos com finalidade específica de garantir liberdade, controle e transparência no cotidiano da vida republicana. Nada de mais político foi assegurado ao povo que sua participação, de duvidoso poder, nos períodos eleitorais de escolha dos representantes do legislativo e do executivo.  Por exemplo, a opinião pública não foi potencializada à condição de maior respeito e de maior capacidade dirigente. As grandes questões políticas e de ordem social não foram e não estão sendo submetidas até agora à vontade popular. Ao contrário disso, tem assumido assustadora proporção o processo de judicialização da política e o consequente esvaziamento da soberania popular. 

O Maranhão, com esses acontecimentos, conheceu uma das mais agudas versões desse mandonismo renovado: mando personificado, mas apurado em técnicas modernas de administração, fazendo uso de policymaker e buscando manter a aparência de legalidade em todos os atos de governo.  No momento inicial, os políticos assumiram o controle do estado do Maranhão adotaram o discurso da Modernidade sem nada de profundamente moderno concretizar em termos de vida cidadã. Com o passar do tempo formataram uma institucionalidade dirigida patrimonialmente, onde os direitos formalizados estão em uma sistemática não correspondência ao factual. Para um grande parcela da população os direitos reais são ignorados pela esfera institucional. Do ponto de vista econômico, ao invés de produzir uma sociedade com classes produtoras, empreendedoras, pautada em contratos formais e com uma estrutura e dinâmica viabilizadora de renda mínima para a sobrevivência digna e algum grau de mobilidade social, produziu uma altíssima concentração de renda nas mãos de pequenino segmento social, representado basicamente por alguns grupos familiares (e empresas familiares) que, em grande parte, possuem uma vida no formato de classe ociosa, com privilégios baseado na linhagem. Essa realidade é uma configuração com vários elementos do que Boaventura de Sousa Santos conceituou como fascismo social. Onde sobra segregação e insegurança para os que estão fora do pacto que não gozam do sistema de benefícios destinado aos ricos e poderosos, em zonas de privilegiadas. Aos despossuídos, esse modelo político/social reserva o confinamento em seus devidos "quadrados" (as zonas perigosas). 

Nesse sentido, "Lobo Edinho" é uma candidatura síntese desse ethos de distanciamento social, de forte hierarquia, de poder altamente verticalizado e de relações sociais pautadas no mando e na obediência, na base do "sim, senhor!". Onde milhões são privados de elementos mínimo para uma vida social digna. Sempre que o senhor "Lobo Edinho" faz um pronunciamento, sua fala assume tom de ordem, imperativo recheado de conotações hierárquicas. Discurso que faz ter relevo a grande distância social entre quem fala e quem deve ouvir. Não é só isso, os discursos desse senhor revela que inexiste nele a noção política de espaço público e tampouco a convicção do valor desse espaço público como fundamental para o diálogo com o diferente, com o contraditório e como uma condição possível de mais humanização.

"Lobo Edinho" aparece na TV e nas suas reuniões "políticas" como senhor de uma ordem tipicamente privada, pois deixa claro que dentro da sua propriedade (o seu quadrado), cabe aos subordinados somente acatar o mando de forma integral e prontamente. É como se ele  tivesse a capacidade e exclusividade de deter o saber sobre os rumos de todas as coisas e o futuro de todos. Ele transpira, respira e cheira onipotência. O karateca quer golpear tudo. Onde fica a participação do povo na gestão da coisa pública aos olhos desse senhor? 

A sinceridade involuntária do "Lobo Edinho" faz transparecer a exacerbação dessa estética de poder vigente no Maranhão: vindo pela "lei", não para a lei e nem sob  lei, mas para subjugar a lei, para que todos os excessos contrários à lei sejam tidos como rotineira legalidade. "Lobo Edinho" é o anti-homem político da polis grega: acha que pode  e sabe governar porque nunca foi governado. Na sua máxima reflexão sobre o mundo, afirma categoricamente: "cada um no seu quadrado." A sociedade, nessa visão, aparece estruturada a partir de castas. Inexiste o que é comum, vontade geral. Ele não enuncia só por enunciar, isso que ele faz é uma confissão de fé. Ele realmente acredita nisso. O mundo dele está bem demarcado com o auxílio de sua geografia umbilical. Não existe ninguém melhor do que ele para simbolizar o ocaso desse mando político que tem se prolongado no Maranhão por mais de 40 anos. 

As vozes que estão se multiplicando nas ruas trazem elementos novos para a pauta política do Brasil, pois são vozes que reivindicam para além do pão, buscando assumir a retomada da democratização. Nesse contexto que vai tomando forma com diversas insurgência  a partir de novas e renovadas reivindicações, mesmo no Maranhão, o exercício de poder de moldes mandonistas vai ficando enfraquecido, intolerável e pouco a pouco inviável. 

Hoje existe, nos segmentos pobres do povo, uma real vontade de romper com o continuísmo no controle político do Maranhão. Trata-se de legítimo ato de vontade popular. Por isso, é pouco provável, no futuro próximo, que algum grupo consiga reproduzir esse tipo de exercício de poder praticado até agora no Maranhão, principalmente se o contexto estiver marcado por novos impulsos de democratização da vida cotidiana. E o que restar ou sobreviver dos Sarney, na política local, não terá mais as mesmas condições e chances de exercer tamanha influência e articulação institucional e extra-institucional no mesmo formato do mandonismo atual. Objetivamente chegou o fim de um período de vigência desse modelo de mandonismo. "Lobo Edinho" com seus rompantes está servindo para ritualizar a "animação" desse final festa. É síntese desse ethos mandonista, mas já totalmente irrelevante... 
                                                                                                                                                        

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